No fundo do oceano há um tesouro, mulher!

março 8, 2012

Comemoramos o dia das mulheres no dia 08 de março em homenagem e lembrança às 130 trabalhadoras de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque que morreram queimadas após manifestação por equiparação salarial e mais dignidade. Chega a ser anedótico que mais de um século e meio depois as mulheres sigam com salários mais baixos a ponto do Senado Federal aprovar o Projeto de Lei da Câmara 130/11 que estabelece uma multa a empresas que pagarem salário menor para mulheres do que aquele pago para os homens que exercem a mesma função. Se exerce a mesma função, não é óbvio que o salário deve ser o mesmo?

Hoje, graças a incessante e secular luta de milhões de mulheres pelo seu direito de opinião e pela sua liberdade de expressão, veremos muitos textos sobre essa e outras questões fundamentais que envolvem os direitos femininos, como o combate à violência moral, sexual e doméstica, os direitos reprodutivos e a saúde da mulher, a redução da morte materna, a legalização do aborto, a situação da mulher negra, a imagem da mulher na mídia, o preconceito em relação às lésbicas, o trabalho escravo de mulheres. Temas centrais na agenda de todas aquelas que vivem diariamente, no corpo e na alma, o preconceito, a desigualdade de direitos, a estereotipização e a vulgarização da sua imagem, os abusos, a estupidez.

Na minha reflexão deste ano, além de relembrar todas essas batalhas por liberdade, felicidade e igualdade, quero falar um pouco sobre o resgate daquilo que  nos dá energia para lutar, mas que às vezes fica muito escondido, sem que consigamos trazê-lo ao nível do consciente. Clarissa Pinkola Estés, em seu livro “Mulheres que correm como lobos”, nos lembra que o arquétipo da mulher selvagem, existente dentro de cada uma de nós:

“(…) É a intuição, a vidência, a que escuta com o atenção e tem o coração leal. Ela estimula os humanos a continuarem a ser multilingues; fluentes no linguajar dos sonhos, da paixão, da poesia. Ela susurra em sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas. (…) Ela é idéias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito, muito tempo. Ela é a fonte, a luz, a noite, a treva e o amanhecer. Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseira da raposa. Os pássaros que nos contam segredos pertencem a ela. Ela é a voz que diz: por aqui, por aqui”.

Somos todas nós investidas desse poder absolutamente mágico da força criadora, geradora de vida, símbolo da gana e do cuidado. Carregamos em nós as fases da lua, cheias, minguantes, mortas e renascidas. Mês a mês. Somos esse bicho que sente o cheiro da chuva, a energia dos ambientes, a musicalidade dos cantos mais longínquos que habitam a alma. Somos o sexto sentido, a intuição aguçada, o estado de alerta, a integridade. Somos o grito, a lágrima, a força, a capacidade inimaginável de suportar a maior dor do mundo, a sabedoria. Sabemos que o órgão do discernimento não é o cérebro, mas sim o coração. Somos a loba, a leoa, a abelha, a rainha, a bruxa, a criança, a dançarina. Somos tudo que simboliza o mágico, o mistério, a sensibilidade, a sensualidade, a paciência, a persistência, a resignação, o renascimento, o lírico, os ciclos de vida-morte-vida.

Buscar o que somos em essência é uma incessante caminhada que alimenta sobremaneira nossa disposição e coragem para tantas batalhas no mundo objetivo. Entender a mulher que nos habita, compreender quem são ou foram nossas mães, nossas avós, nossas bisavós. Aprender quem são as tantas mulheres que, mesmo oprimidas com violência, desigualdade e invisibilidade, conseguiram submergir do oceano profundo no qual foram arremessadas, uivar para a lua e reorganizar a matilha. Em minha homenagem a todas nós, compartilho o belíssimo trabalho de uma grande e jovem mulher, que de mãos dadas a outras tantas, resgatou do fundo do mar um tesouro desaparecido. Mariana Pires Santos reuniu poemas românticos de brasileiras do século XIX no lindo livro “As brisas sabem meu nome”, mostrando que a luta feminista também se faz com descoberta e com poesia.

Resgatemos todas nossos tesouros escondidos. No desvelar da história de todas mulheres submersas, na batalha feminista diária, no encontro com a nossa essência, no diálogo com o sagrado feminino. Feliz dia das mulheres, guerreiras!

Vivendo a cariocagem

janeiro 28, 2012

Eu já morei no Rio uma vez e agora moro de novo. Já morei em cinco cidades depois de adulta e com essa pequena vivência tenho a convicção de que o Rio é a cidade que mais oferece aos seres humanos mais bônus que revezes. E ouso dizer que: é sim a melhor cidade do mundo pra se morar. Todas as cidades tem problemas, inclusive o Rio. A diferença é que os problemas do Rio que me encostam são quase todos motivo de crônicas. E gostaria de, humildemente, elencar algumas características que fazem dos cariocas, falando genericamente e consciente do erro (afinal tem gente doida e errada em todo canto), seres contra a civilidade e engraçados ao mesmo tempo.

  1. Sinal de trânsito – versão pedestre

Uma das características do carioca, comprovada empiricamente em quatro situações semelhantes, é sua postura frente ao sinal de pedestres. Pode fazer a experiência. Se o sinal de pedestre estiver vermelho e algumas pessoas avançarem sobre a faixa de pedestres, atravessando a rua no milésimo de segundo entre o atropelamento e a vida, ou simplesmente se prostrando no lugar –  em tese – reservado ao carro, tenha certeza: essas pessoas são cariocas. As três que restarem na calçada, aguardando bovinamente o sinal verde, são de outra cidade. Faça o teste. Eu fiz quatro vezes. Infalível.

  1. Sinal de trânsito – versão motorista

Outra característica do carioca é jamais parar no sinal amarelo. Essa é um pouco mais profunda. Eu nunca estudei a fundo a lógica do sinal amarelo, mas minha formação como motorista sempre me ensinou que é um momento que, se sua distância for um pouco mais de 10 metros, o melhor é reduzir e parar. O carioca acelera até os cinco segundos após o sinal vermelho. E ele tem a certeza que essa é a direção defensiva, porque se ele pára no sinal amarelo, o carro de trás, que pensa com a lógica dos cinco segundos seguintes, vai certamente bater na sua traseira e não vai ser legal. Logo, ele avança para não ser batido. E o pedestre também, porque tem pressa não sei porque. Vai os cinco segundos mudam a vida dele, né? Mas todos avançam e o trânsito flui, com os quase batidos e atropelados. É esquisito porque o cara que está parado no sinal fechado também começa a andar cinco segundos antes do sinal abrir. E ninguém bate. Só pode ser o Cristo Redentor operando em alta.

3. Andando na calçada

Outro aspecto muito interessante. As calçadas do Rio por onde ando geralmente são largas, mas com vários canteiros de árvores antigas a cada 30 metros. Entre os canteiros e os prédios, geralmente só passam duas ou uma pessoa. Em todas as cidades que morei, pessoas falando no celular, conversando com o chaveiro, ou com os vizinhos, com o porteiro, com o flanelinha, empurrando o carrinho de bebê ou o de supermercado, ou simplesmente andando muito devagar, compreendem que outras pessoas mais apressadas estão atrás e dão aquela olhadinha de lado para dar passagem. No Rio não. O tempo e a calçada pertencem ao espírito carioca. E você que se foda insistindo numa ultrapassagem descabida pela pressa. E por isso deve se foder disputando com os carros que tem aquela relação super saudável com o sinal e o espaço regular entre a rua e a calçada. Não há espaço para pressa. Devo dizer que essa foi inspirada pelo amigo do bar, que não lembro o nome.

 

4. Regando as plantas

Essa não é uma regra geral, mas já aconteceu seis vezes. Eu já lavei carro com mangueira e reguei muita planta sem dó, achando que a água era infinita. De uns tempos pra cá, adquiri consciência ecológica, reciclo lixo, bebo no mesmo copo de plástico (quando só tem ele) até ter colônia de bactérias se proliferar  e tudo mais. Enfim, água é um troço importante mesmo, vamos aí economizar água. Regar só com água da chuva e tal. A regra é ser contra regar plantas e lavar calçada. Entrei nessa vibe e virei militante. Até aí foda-se. A questão é que um dia eu estava andando na calçada larga, que vira estreita a cada 30 metros, que ninguém passa sem impor licença, e tinha uma tia de dentro do prédio regando as plantas e a calçada. Parei na esperança de que, óbvio, ela ia parar de regar a calçada para não me molhar. Mas não aconteceu até que eu pedisse por gentileza que ela abaixasse a mangueira para que eu passasse. E ela me xingou nos cinco minutos seguintes, com o chaveiro, o vizinho, o porteiro, o flanelinha, com a moça que estava empurrando o carrinho de bebê ou o de supermercado, dizendo que eu era uma folgada. Onde já se viu? Pedir pra eu baixar a mangueira..

5. Conversando sozinho

Em qualquer situação de espera, o carioca fala sozinho. Na maioria das vezes parece puxar assunto com alguém, mas às vezes acho que a pira é conversar com ele mesmo, botar pra fora e extravasar. Pois bem, essa situação já me ocorreu algumas vezes, em consultório médico, ponto de ônibus, metrô e na praia. Mas a mais simbólica foi no escritório de reparo técnico da Samsung. Eu ouvia rádio, provavelmente MPB FM, jabazeira mas boa, e um senhor disparou a falar sozinho e alto, ao ponto de eu escutar com os fones e a música no ouvido: “é isso. Quando é pra comprar, vem a moça com os seios à mostra te atender prontamente. Quando dá merda, é essa merda, 40 m minutos de espera numa porra de escritório que não vai resolver a porra do seu problema”. Era eu, com os fones de ouvido no talo e ele. E só. E ele seguia: “é uma merda mesmo, você tá aí fingindo que tá feliz com essa música e tá aqui esperando há quarenta minutos por uma porra de um serviço que não funciona. Cidadão só se fode mermo”. Eu me rendi e tirei os fones. Seu Rogério, problema no hardware, da merda que é essa porra toda dessas novas tecnologias. Saiu me desejando sorte, bom dia e dias melhores com meus equipamentos

6. Os taxistas

Capítulo a parte. Não existem taxistas mais abertos a desvendar a própria vida que no Rio de Janeiro. Mas esse post fica pra posteridade. Aguardem.

Motivacional*

novembro 9, 2011

A existência como todas as possibilidades

A reinvenção dos limites, o transbordar do vértice

A licença poética para se vestir diferente

O desenho da vida como uma obra de arte

Pouco importa se real ou imaginário, ou se os dois ao mesmo tempo

O horizonte, o mergulho, o profundo

O óbvio da flor, o inusitado da flor

Não ter nenhum compromisso que não seja experimentar

Provar com sinceridade a beleza, a tristeza, o amor

Ficar sozinho, silenciar, ficar junto, silenciar

Sair por aí, sorrir sem querer, sorrir querendo

Chorar de alegria, chorar de dor

Descobrir prazeres, permitir descontroles, loucuras

O infinito de um instante

Ser livre

*Relato poesia pós palestra motivacional. Atibaia, 09 de novembro, 2011.

Porque (infelizmente) o mundo também é dos cretinos

novembro 5, 2011

Eu já vi de muito nessa vida. Mas nunca, jamais, em toda ela, tinha ouvido um cara, num bar, dizer que uma amiga minha não dá mole pra ele porque ela parece uma empregada doméstica. Ela é negra, com orgulho dela, principalmente, e meu, secundariamente.

As agressões são de uma magnitude que eu nunca presenciei. Primeiro porque as empregadas domésticas são pessoas que fazem coisas inacreditáveis por nós, seres de classe média. Não mereciam qualquer sinal de desrespeito. São geralmente mulheres que deixam nossa casa convivível, agradável. Arrumam nossa sala, nossa roupa, nossa louça, deixam limpa nossa privada. E um imbecil desse tem coragem de dizer isso como se fosse uma ofensa. Aliás, se fôssemos coerentes, devíamos nos envergonhar por não sermos capazes de fazer tudo que elas fazem para deixar nosso umbigo habitável pra nós mesmos.

Mas, pior, diminuir uma negra, e a associar a uma função absolutamente digna, mas que ele acha menor, pelo único fato dela ser negra, e porque quem lava a porra da cueca suja dele não é ele, é muito foda. São tantas cretinices ao mesmo tempo que minha vontade maior é só dizer o quanto ele é dispensável, o quanto de peso desnecessário ele faz na terra. Salafrário do caralho. Com racismo e machismo transbordando aos montes. Que bosta de mundo que trata as mulheres e os negros assim. Que bosta de sujeito.

A beleza nos olhos de quem vê (ou bebe)

outubro 27, 2011

- Oi.

- Oi.

- Tudo bem?

- Sim.

- Tá sozinha?

- Não, com amigos.

- Você é linda.

- Não sou.

- Claro que é.

- Não sou. Você que está bêbado.

- Eu estou bêbado, mas você é linda.

- Não sou. Dá uma olhada em volta. Olha pra mim.

- Tá, você não é linda, mas não é feia também.

- Você é.

- O que?

- Feio.

- Sério?

- Sério. E eu não estou bêbada.

Carpe diem

outubro 9, 2011

“Não procure saber, ó Leuconae,
- por ser inútil -
Que fim a nós os deuses destinaram;
Não consultes sequer
os números babilônicos:
Melhor é aceitar! E venha o que vier!
Que Júpiter te dê ainda muitos invernos,
que seja o último este que ora desfaz, nos
rochedos hostis, as ondas do mar Tirreno.
Vive com sensatez, bebe o teu vinho e,
como a vida é breve, encurta a longa esperaça.
Enquanto falamos, foge o tempo hostil.
Aproveita, pois, o dia de hoje,
que o amanhã não merece confiança”
Horácio, Odes (1,11)

Esse poema inspirou o dono de uma rede de restaurantes em Brasília a batizar seu negócio como Carpe Diem. Eu não sei que parte do texto a equipe do restaurante não entendeu, mas o último verbo que me veio à mente para traduzir a minha sensação ao sair de lá foi “aproveitar”. Já tinha tido uma experiência ruim antes quando oito garçons preferiam ver novela a olhar para as mesas, atender os clientes e anotar pedidos. Nesse dia eu fui embora antes de comer porque 20 minutos depois de sentar não consegui acesso ao cardápio. Não imaginava a minha sorte.

Hoje, ao contrário do outro dia, o primeiro atendimento foi rápido (Faustão em baixa entre os funcionários). Eu e meu amigo pedimos de entrada um bolinho de aipim e um pastel de carne. Eu fiquei com o risoto de pato como prato principal e ele pediu talharim com frutos do mar. Eu também não sei que parte da definição “entrada: primeiro prato servido em uma refeição” (Houaiss) a equipe não entendeu, mas 40 minutos depois tivemos que alertar o garçon que queríamos os salgados antes do prato principal.

O bolinho de aipim estava com o recheio congelado. Acontece vai. Troca lá e traz uma coca zero, por favor. Volta o bolinho cozido e nada de coca zero. Pedimos de novo. Veio o primeiro prato e não veio a coca zero. Veio o primeiro prato e não veio o segundo. Veio o primeiro prato, mas não veio inteiro. Sem coca, sem talharim e sem segundo prato, eu fiquei me perguntando se algum dia eu já tinha ido a um restaurante em que duas pessoas fazem um pedido, mas só uma come. Não lembrei. Mas o melhor ainda estava por vir.

Antes da coca zero chegar, pedi um guaraná normal. Não sei que parte “guaraná normal” o garçon não entendeu, mas ele trouxe um diet. Acontece vai. Troca lá e traz a coca zero pelo amor de deus. Junto com a coca zero (e uma normal que ele trouxe junto para não errar de novo), chegou o talharim do primeiro prato (!) e o risoto de pato.

Eu olhei pro prato e pensei que se eu quisesse beber vinho tinha pedido um. O arroz estava boiando numa piscina roxa (o que denunciava a excelente marca utilizada no cozimento) e a pele do pato afogada no arroz. Não consegui passar da terceira garfada e só cheguei até ela porque a fome era terrível. Mas não pior que a sopa de vinho ruim com pele de pato. Não comi e não paguei. Aproveitei melhor meu momento no clássico pão com salame da padaria.

“Melhor é aceitar! E venha o que vier!” uma banana, Horácio! Carpe diem nunca mais.

Despedida

outubro 6, 2011

Ainda me resta um tempo de convivência com o céu, com os galhos tortos e os pássaros daqui. Reencontrei-me algumas vezes nas águas intensas e nos horizontes paralisantes dessa terra. O cerrado foi um grato suspiro de vida, de recomeço, de tumulto, desacerto e busca.

Encostei umas tantas gentes transbordadas de desejo e com uma coragem absurda de mudar a história. Delas e do Brasil. A do mundo não coube na humildade da maioria. Mas o valor da diversidade, da preservação, do respeito e da urgência de experimentar plenamente o mundo nunca se fez tão presente no sorriso e na lágrima de cada amigo e amiga que tive a imensa alegria de rever ou conhecer. A música, os bares, o samba, as reuniões, as marchas, as cirandas, os terreiros. Tudo desenhando uma incansável luta pelo sentido leve, profundo, contraditório, político, poético e intenso da existência.

Brasília foi um choro, um grito. Por um futuro que segue amontoado de incertezas e possibilidades, certamente fermentadas pela natureza escancarada, pelas pessoas desajustadas, pelo mundo todo errado. Por sorrisos, abraços, desejos, angústias, momentos. Flores secas, margaridas em marcha, ipês amarelos, ibiscos e aquela vermelhinha que nasce entre os espinhos. A falta de ar repleta de cores. A chuva que vem recompensando tudo. O experimento mais concreto e metafórico da contradição humana que uma cidade já me deu.

A ausência de esquinas repleta de encontros. A cidade totalmente calculada, mas completamente desnorteada pela complexidade de sonhos e frustrações que se juntam nela. E, apesar dos sabiás de peito laranja com ninho na minha janela (que cantavam lindamente!), Brasília foi também um tombo, um soco.

Com vida dura espalhada na rodoviária, na quadra 6 do Setor Comercial Sul, com excesso ou falta de trabalho, com doenças, com perdas. Com filas, soberba, contraste, falta de sentir os pés. Caminhar é um luxo, um risco, uma canseira danada. Pedestre, com privilégio na faixa e aparência de prioritário, só se fode. Voltas ao mundo para achar as listrinhas brancas na pista. Mas também não há rodas que encontrem um lugar pra se aquietar. Não há vagas.

Brasília foi um risco, uma aposta. Que de tão torta seria simplista dizer que deu certo e, de tão boa, totalmente leviano dizer que deu errado. Foi um caminho, um rito. O argumento e a racionalidade, a disputa. E também a passagem para uma vida adulta que suplica por inocência e sensibilidade em relação aos sentimentos mais primários. Viver a grama, o carinho dos cachorros, os santos e orixás, as mil e uma flores, o limão de cor laranja, a graviola, o sol e a lua. Gritando. O experimento da falta de água no ar. Que dói o nariz, a garganta, faz a pele ficar “russa”, mas seca a roupa e o cabelo rapidinho.Entre abril e setembro.

Brasília foi um tanto.

Lingerie

outubro 4, 2011

Essa semana está rolando um grande bafo na mídia porque a Hope, uma marca de lingerie, veiculou uma propaganda que trata a mulher como objeto. Eu gosto de lingerie, mas agradeço por não ser público alvo de uma loja que qualifica suas clientes dessa forma. O diálogo que me faria dar risada e ter curiosidade de conhecer os produtos seria esse aqui:
- Querido?

- Oi?

- Bati o carro.

- Putz, que merda. Você tá bem?

- Eu tô aqui, né?

- Mas e o carro?

- O que tem o carro?

- Como assim o que tem o carro? Você tá aqui, né? Tá bem. Disse que bateu o carro. E o carro?

- O carro amassou um pouco, mas nada comparado àquela merda que você fez depois da festa do Artur.

- Aquilo foi coisa de homem, Helena.

- Genial a coisa de homem. Sair na porrada na festa, ficar puto, arremessar o copo no vidro do próprio carro e arrematar com um soco no capô. Fodeu o queixo, fodeu a mão e fodeu o carro.

- Ai, Helena. Foi apenas uma leve demonstração de virilidade masculina potencializada pelo álcool.

- E o carro?

- O que tem o carro?

- Quebrou o vidro, amassou o capô e custou uma puta grana que definitivamente não estava sobrando no nosso orçamento. E ainda tive que aguentar você vindo me acordar de cueca, todo ensaguentado, querendo me seduzir para não levar um esporro.

- Você não gostou da dança do acasalamento que eu fiz especialmente pra te contar a novidade?

- Adorei Luis Fernando. A cena do inferno. Você quase sem queixo, com sangue jorrando da cara, puta bafo de álcool, de cueca do avesso, se esfregando em mim e falando: amor, tenho que te contar uma coisa…bati no carro. Foi um tesão incrível.

- Você devia era colocar uma lingerie para me contar que bateu o carro.

- Claro. Aliás, estou com uma novinha em folha agora mesmo. Pena que acabei de marcar o taxi pra balada “só meninas” de hoje e só vou poder te mostrar quando voltar. Prometo evitar o queixo deslocado e o sangue jorrando, mas a história do carro, o bafo de cachaça e a calcinha do avesso eu garanto!

Para você (que ainda não sei o nome)

setembro 9, 2011

Cara vizinha,

Anteontem tivemos aquele remereme. Não consegui falar, você não deixou, mas queria conversar. Cada um tem um nível de reflexão sobre sons altos, e o quanto quaquer tipo de trauma aumenta ou diminui o volume de umas coisas ou outras. Mas anteontem eu só estava conversando de chinelos de borracha. Dando passos.

Moramos num edifício de 40 anos, feito num tempo em que paredes não eram feitas para separar cômodos, mas para garantir privacidade. Eu sei que você passou por uma obra aqui, que só britava na sua cabeça. Isso estressa mesmo. Mas é outro momento. Com menos furadeiras, marteladas. Agora, somos apenas dois caminhando e conversando. Com chinelos de borracha.

Apesar de tudo, acho que a gente podia se conhecer, entendermo-nos melhor mutuamente, convivermos melhor. Nada é muito fácil, né? Vale tentar? Sei lá eu, só não dá pra não andar. De chinelos de borracha sobretudo.

Esperando o melhor,

Carol

Mundo cão

agosto 3, 2011

O nome dela era Pedrita*. Sabe-se lá como veio parar no quintal do Gomes e Joca, meus cachorros. Quando eu percebi eram três pra lá, três pra cá. O cheira cheira sem fim me fez acreditar que era só uma brincadeira, afinal meus dois filhotes eram totalmente ingênuos e virgens, faziam pouca idéia de como seria o processo. Em três anos jamais tive notícia de qualquer investida nas cadelinhas vizinhas e tampouco a eles foi proporcionada uma visita íntima que fosse.

Alguns podem achar crueldade, mas as opções nunca foram fartas. Onde eu moro a maior parte dos bichos é de raça puríssima e mantém distância regulamentar dos dois pés de chinelo, que eles não usam, mas gostam bastante de mastigar. Aliás, tenho tido grande dificuldade em levar meus cachorros para andar de avião porque não consta no sistema a categoria “vira-latas”. E assim, o atendente não consegue passar para a etapa seguinte, porque “raça” é um campo obrigatório. Tentamos mestiço, não sem preencher o campo de observações, e seguimos sob análise da cia aérea. Eu já vi muita coisa, mas discriminação canina é novidade.

Pois bem, voltando à Pedrita, a nem tão graciosa beagle puríssima no sio que ocupou a minha propriedade em busca de amor livre. Já estávamos eu e Paola*, sua mãe humana de nove anos, tentando dissuadir o ato, quando aconteceu. E foi o Gomes quem se deu bem, pelo menos na hora que vi. Depois Paola me contou que também tinha rolado no dia anterior, ela não sabe com quem.

Eu até sabia que depois da coisa toda, macho e fêmea ficavam grudados. E olha, que os serem humanos dêem graças aos céus, ou à evolução, ou a qualquer coisa em que se acredite por não terem de passar por isso. Ambos estavam claramente constrangidos, querendo sair daquela situação, ainda mais com Joca, seu irmão gêmeo, eu, Paola e seu pai, recém chegado ao evento, torcendo pro desgrude rolar. E não acabava nunca! Ficaram uma meia hora lá, tentando se livrar do que certamente foi a ejaculação mais precoce que já presenciei.

Consegui prender o Joca na grade do portão enquanto aguardava o desvencilho. Paola argumentava que estava claro pra todo mundo que eles não queriam mais estar grudados, “então por que não se separam?”, perguntou. Na metáfora mais delicada que consegui encontrar, expliquei que às vezes machucamos o dedo e ele incha e, mesmo que a gente queira muito, não depende da nossa vontade ele desinchar. Não sei se ela entendeu, mas parou de reclamar.

Finalmente consegui pegar o Gomes pela coleira, ao mesmo tempo em que afundei meu pé no formigueiro gigante. Desconheço o nome das formigas, mas uma ficou grudada no meu dedinho. E doeu, mas como o urgente era tirar Pedrita do quintal, prendi o Gomes ao lado do Joca. No portão. Que deve pesar uns 100 quilos. Excelente idéia. Dois passos meus depois, eles uniram forças e arrancaram o portão. Que caiu em cima do meu carro. 100 quilos.

Com os pés em chamas (o efeito das formigas foi um pouco retardado), eu sentei e chorei. Pela ardência, pelo carro e pela Pedrita, coitada, que se envolveu súbita e sexualmente com os gêmeos. Sem preliminares e com ejaculação precoce. Sem jamais saber quem será o pai dos seus prováveis 11 filhotes inexistentes no campo “raça”do sistema.

*Nomes fictícios.


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