O fim do instante

abril 22, 2020

Stephen Hawking descreveu em Uma breve história sobre o tempo um debate filosófico sobre a origem do universo. De Aristóteles a Ptolomeu, passeando por Copérnico e Galileu, ele chega a uma antinomia (contradiçao) inaugurada por Kant segundo a qual “se o universo não teve um início, haveria um período infinito de tempo antes de qualquer evento, o que ele considerava absurdo. O argumento para a antítese dizia que, se o universo teve um início, haveria um infinito período de tempo antes disso, e assim, por que o universo deveria começar em algum momento específico?”

Depois veio o  século XX, Big Bang, Newton e Einstein cujas teorias e genialidades são dispensáveis nesse breve e ignóbil ensaio literário. Estaciono oportuna e provisoriamente no século XVIII para agarrar-me ao conceito contraditório de Kant e despedir-me desse blog. É possível imaginar o fim de um instante sem imaginar o fim da vida – e do tempo – se o instante é agora, e agora, e agora também? E assim amanhã e depois e para sempre até o infinito? Talvez não. Mas algo na minha vida de instantes morreu.

Em janeiro de 2010 quando esse blog foi criado, eu acreditava no genérico, simples, solto, desapegado, fugaz, lírico, inconstante, intenso e distante instante. No primeiro post..

… ela disse:
– Você pode viver toda uma vida num instante.
Não querendo convencê-lo de nada, mas reafirmando sua crença nos momentos, que eram para ela o único sentido possível da existência. Gostava de achar que sua vida era uma coleção deles. Momentos. Não importava futuro, passado, causas ou consequências. Mas o instante. Aquele instante. Que passou.

Dez anos depois são 10 anos depois. Momentos viram história, futuro preocupa, passado é memória, causas são raízes, consequências cicatrizes. Instantes importam, mas constâncias desafiam. E a vida forjada num instante caminha para se encontrar em demora. A menina sentada na lua, sem chão, pensando na vida à revelia virou planta, terra, cultivo, tartaruga.  E ela disse:

tt

E depois que publiquei o wordpress me avisou que esse foi meu post número 100.

FIM.

Quarentena

abril 11, 2020

Eu juro que se pudesse desaparecia.

Podia virar planta, gota de chuva, essência de lavanda, pintassilgo, girafa, peixe-palhaço, dente de gato, lêndia, boneca de pano, espuma de sabão de coco em pasta, elástico de lençol, larva de borboleta.
Podia morar em cima de um prédio, embaixo de uma rocha oceânica, no meio da nuvem existindo como qualquer molécula de água ou ozônio, no meio da lava sendo calor e mais nada, no meio do nada sendo uma sacola plástica perdida no vendaval.
Podia ter alguma ideia, algum sentimento bom, alguma atitude que preste, algum arroubo irresponsável, pagar de louca, tirar a roupa, ficar pelada por aí, com pelos crescendo como cabelos e virar uma vassoura gigante que espirra detergente nos pontos de ônibus pra ajudar a cuidar das pessoas.
Podia saber dançar, conseguir ler poesia, treinar violão, aprender a costurar, insistir até conseguir colorir as unhas da mão direita de vermelho, fazer o passo a passo da maquiagem drag queen mesmo não tendo glitter suficiente pra um olho, ou pintar alguma coisa que não fique entre borrões que não querem dizer nada e um desenho do bidu.
Podia te dizer que você tem razão e pedir perdão, desafiar a ciência e ser um átomo livre, que entraria devagar pelo seu nariz sem você notar e seguir fazendo hi five em todos seus órgãos e tecidos até achar o atalho do seu coração e ficar ali abraçado com ele pra sempre até você poder sorrir de novo.
Aí eu sairia num suspiro e viraria um vagalume.

Montanha

janeiro 24, 2019

O amor assim, agora, olhando um pouquinho mais do alto da colina, é mesmo uma busca de si. Lá embaixo, um transe, como se não restasse nada na vida a não ser um pôr do sol, uma noite em claro, um poema, uma coincidência, uma carta escrita à mão, uma música gravada na fita cassete, um livro, uma lua, uma praia, uma piscina, aquele olhar, aquele sorriso, aquelas borboletas na barriga, aquele desespero, aquela dor. A solidão. Até o novo amor. Daqui de cima, rindo um pouco do exagero de lá de baixo, contemplando em silêncio a caminhada, os tropeços, as retomadas, a busca de si no outro segue. Em outro ritmo, com mais cuidado, mais respiros, menos gargalhadas e mais risos. Segue. Menos grito, mais silêncio. Mais segurança e malemolência. Mais consciente, mais tranquilo, mais carrossel que montanha russa, mais humanista que revolucionário, mais “mais um” que mártir. E não é que é melhor ou pior, no que os extremos da vida pintaram a estrada. É ótimo na melodia do silêncio do um pouco mais alto, assim como foi lindo logo ali, uns 10 anos pra baixo. A vida é essa estrada. E eu acho que é pra cima por conta da perspectiva.

Texto escrito em: 13 de agosto de 2017.

Cinzas

agosto 11, 2018

Não sei do que vou vou morrer

Se de amor, desastre aéreo ou saúde

Sei que Baudelaire estava certo

Há que se viver no interstício que acontece entre a poesia, o vinho e a virtude

E se o avião cair e meu relógio não for encontrado

Porque não uso relógios

Que o tempo me leve de volta

À praia onde as três tartarugas brincam livremente

Perspectiva

agosto 5, 2018

Os ventos
Os ventos nas folhas
As poças
O reflexo nas poças
A multidão
Os olhos nas multidões

Os sons
Os sons nos silêncios
As tragédias
O mais importante das tragédias

Respirar
Respirar

Viver é intocável

Eclipse

julho 27, 2018

– Menino, abriram as laterais da banca, trocaram a luz. Ficou ótimo!
– Novo conceito. Trocamos tudo. Posição das revistas e dos jornais. Livros e coletâneas em evidência. Organização das balas e dos cigarros mais clara para mostrar nosso diferencial. E nada na frente mais.
– Ficou um espetáculo. E o músico aí do posto policial, contrataram também?
– Ele tocava no posto de gasolina, ajudamos e ele montou ali. Ótimo cantor, né? Gostou?
– Gente! Maravilhoso. Quem é ele!?
– Jesus Negão.

E com a lua vermelha em eclipse, pedestres seguiram e bêbados ficaram em seus caminhos. O sinal abriu sob aplausos na faixa, na calçada, na frente do posto policial.

Loving you is easy ‘cause you’re beautiful.

#cenascariocas

Seu Arnaldo

julho 21, 2018

O seu Arnaldo era o meu vizinho de muro. Era a única casa da rua em que a gente não tinha relação com as crianças. Porque não havia crianças. Seu Arnaldo era um senhor, que a mim parecia muito, mas muito velho. Provavelmente não tinha 60 na época. Mas éramos todas crianças que brincavam na rua, de pique-esconde, de queimada, de bet, de vôlei. No vôlei era o mais legal, porque a gente pendurava a rede entre uma lança de um portão e outro e fechava a rua. E para um carro passar a gente tinha que parar o jogo e os dois mais altos levantam a rede e ele seguia. A rua era nossa. Mas a gente era generoso.

Não lembro qual foi a primeira vez que o seu Arnaldo furou a nossa bola. Eu devia ter 8 anos. Os grandes já falavam que era perigoso jogar bola perto da casa do seu Arnaldo. Mas os amigos mais próximos estavam todos ali perto da casa dele. Não tinha jeito, a Lud e a Lili moravam quase em frente a minha casa. A Pati no quarteirão seguinte, mas na direção da casa dele. Geral estava entre um quarteirão e outro, e a casa do seu Arnaldo era a da esquina. A logística era propícia para montar a rede ali, entre a casa da tia Ieda e da Dona Mariquinha, que era minha outra vizinha de muro e dava outra história.

Eu só sei que o seu Arnaldo furava as bolas que caíam no quintal dele. Lembro da primeira vez que toquei a campainha pedindo a bola. Apareceu a mulher dele. Não lembro, mas podia chamar Eleonora. Eleonora abriu a porta com uma cara de “odeio criança” e falou que não viu bola nenhuma. Frustradas as tentativas de diplomacia, passamos a entrar no quintal pulando o muro em silêncio para procurar a bola. E descobrimos que ele mantinha um cemitério de bolas furadas no jardim. Uns três cadáveres foram resgatados nesse dia para serem enterrados com honras das famílias.

Mas o pior foi a vez que o seu Arnaldo tirou a Ximbica da gente. A Ximbica era uma jabuti que minha mãe adquiriu para curar minha asma. Ela já tinha feito de tudo. Pneumologista, purê quente nas costas, natação, Santo Expedito, Guilherme Arantes e tudo mais que ela acreditava que ia me curar. E alguém falou que jabuti dava jeito. Assim a Ximbica chegou lá em casa. Depois do Celito, um gato siamês que só ficava em cima do muro. E sumiu sem qualquer efetividade medicinal.

Mas a Ximbica era um jabuti fêmea em missão de cura. A gente desistia da bola pra ver a Ximbica rodar e rodar com o casco no chão. Ela comia alface e churrasco. Não brincava com a gente diretamente, a não ser quando deitava de costas. Era o brinquedo vivo da criançada (eu sei que não devia falar isso, mas estávamos na década de 80 e viajávamos no porta-malas). A Ximbica era também a pajé da nossa casa para minha mãe, com aquela cara tranquila e forte de xamã.. E sabe o que fez o seu Arnaldo? Denunciou a minha mãe pro Ibama. E perdemos a Ximbica no mesmo dia em que tive uma crise de asma. Mamãe não foi presa e me levou pro hospital.

Eis que a vida dá voltas. Desde que me mudei de apartamento recentemente, 30 anos depois de nunca mais ver o seu Arnaldo, dois meninos, netos da minha vizinha, brincam de bola no corredor. E a bola batendo na parede irrita, mas na porta gera outro tipo de sentimento. Ruim. Não vou alimentá-lo.

Acontece que eu simplesmente não consigo reclamar. Não consigo ligar pra portaria, não consigo escrever um bilhete, não consigo falar com a minha vizinha. Sei lá, explicar que trabalho em casa, recebo amigos em casa, a bola na parede incomoda, mas na porta me dá vontade de pegar, furar, e pregá-la no corredor feito um Cristo crucificado.

E não falo nada. A pior coisa que já fiz foi abrir a porta e olhar em silêncio. E ver em martírio os olhos das crianças irradiando medo e súplica. Só consigo sentir uma dor profunda e me ver nos olhos do seu Arnaldo. Que passe bem, se entre nós estiver. E que descanse em paz, se jaz no cemitério das bolas.

O gato e o buraco

maio 11, 2018

Era uma vez um buraco
O buraco era fundo
O buraco era escuro
O buraco era frio
O buraco apertava
O buraco doía
O buraco sentia

Um dia chegou o gato
O gato era leve
O gato era ágil
O gato era alegre
O gato brincava
O gato miava
O gato sorria

O gato viu o buraco
Caiu leve no fundo
Alcançou logo o escuro
Chegou intenso no frio
Pateou com desprezo o aperto

Se machucou.
Miou.
Pulou.
Sumiu.

O buraco perdeu um pedaço.

Sueli

janeiro 22, 2018

Sueli sabia a quantidade de pensamentos e movimentos errados que fazia todos os dias. Errado era sempre relativo, ela pensava, mas tinha que ter um ponto de referência. E adotou seu corpo e seu cotidiano como parâmetro. O que foi uma tragédia porque pareceu ainda tudo mais errado do que a comparação com o Osho, ou a Simone de Beauvoir, ou a Angela Davis, ou qualquer referência de correto que ela poderia crer que fosse boa. Ou pelo menos coerente com uma vida plena que ela achava que devia perseguir. E sinceramente, pra ela, ficou tudo mais difícil. Num primeiro momento houve a sensação de conexão, que todos os gurus adotados professavam e, claro, aquele era o caminho. O corpo, as sensações, os sentimentos. As ações? Uma tragédia. Tentava sempre de tudo, inclusive achar que cada dia era um dia, que renascer é agora e sempre, que o infinito é o momento de viver. Demitir o carrasco interno, substituir pela vovozinha fofa que traz chá de camomila e bolo de laranja, se abraçar, se acolher. Acreditava piamente que seria melhor, pra ela mesma, até pra chegar um dia a ser menos ranzinza com a cagação de regra sobre qualquer assunto, inclusive a vida dos outros. E começar a cagar suas próprias regras, como faziam Osho, Simone de Beauvoir e Angela Davis, com uma história e dignidade muito melhor que a dela, mas o importante era se conectar e viver a própria crença, o próprio desejo, desapegar, seguir, e quem sabe um dia contar uma boa história do que deve ser a vida para aqueles que não sabem, ou não entenderam ainda. E o mundo aquela bosta verde e marrom, fétida. Sua vida um pouco melhor, mas com cagadas em cataratas, caminhos errados, repetidos, tudo um grande cocô gigante e pouco saudável, o que falava muito sobre sua alimentação e a do mundo. E aí passou pela cabeça dela que talvez a vida seja só viver mesmo, sem muito sentido, ou com o sentido que ela queira dar. E se é algo bonito como ser de esquerda e gostar de plantas está bem. E está bem também morrer de preguiça de qualquer idiota que pense o contrário. E que está bem lutar pelo que se acredita, e está bem ser romântica, embora empiricamente seja um erro, e está bem achar que o grande problema do mundo é a cagação de regra, e ser empática com o mimimi, e estão ok suas escolhas, certas ou erradas, é simplesmente viver. O que não vai levá-la para lugar algum a não ser o próximo ano, e os 100 novos fios brancos, as rugas se apresentando, o Carnaval em doses mínimas, os dias com a família com mais afeto que conflito, a preguiça eterna da cagação de regra do mundo, e a própria cagação de regra que acha que o mundo não entendeu a importância de porra nenhuma. De saber que estão todos muito fodidos, cheio de conflitos, mas que foda-se a angústia de quem pode pagar uma psicanalista, que o mais importante pra ela é a desigualdade social. Embora ela mesma pague uma psicanalista e viva nessa contradição bizarra, de não poder mexer um palito pra fazer a vida dos pobres melhor, além de amar sua família conservadora e capitalista. O que Sueli podia fazer com isso? Com seu berço esplêndido, sua vida privilegiada e sua trajetória de descobertas? Podia salvar o mundo? Não. Podia convencer sua família? Não. Podia se sentir menos culpada? Não. E isso a tornaria mais filha da puta e parte do sistema? Provavelmente. Mas ela estava ali. Sem saber exatamente o que significava viver plenamente. Com desejo de muita coisa, fazendo um monte de besteiras todos os dias. E se sentindo demasiadamente humana.

#foratemer

maio 4, 2017

Tem gente que nasce com esse gosto doido de inconformidade. Que prova a rotina fácil, e acha aceitável, mas tem vício de não engolir injustiça. E até convive com ela na dose permitida que a repetição da desgraça anestesia. Mas o troço coça. Nos mais pacíficos faz chorar, nos menos, sobra pra muita gente. E é preciso conviver desconvivendo com essa dose cavalar de inaceitação. Para pensarmos sobre o sentido de existir. Para questionar o consumo consumindo a gente. Para entender que o dinheiro está indo para oito pessoas no mundo, o o resto da gente passa fome, morre e se mata, de verdade e virtualmente, na polaridade ingênua das redes sociais. Por isso inconformar-se é um bem. E dar sustância a isso, se informando, pensando, e estando junto dos outros inconformados, é dar passos num caminho junto, pra que mais gente viva melhor. Espero que com mais calma que violência. E consciente que calma é privilégio de quem tem palavra como respiro. Ar da maioria é no repique do chicote. Ou da bala. No Brasil especialmente.