Cinzas

agosto 11, 2018

Não sei do que vou vou morrer

Se de poesia, amor ou saúde

Sei que Baudelaire estava certo

Há que se viver no interstício que acontece entre a vida, a poesia, o vinho e a virtude

E se num acidente de avião meu relógio não for encontrado

Porque não uso relógios

Que meu sorriso permita meu mergulho

Na Praia das Virtudes

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Perspectiva

agosto 5, 2018

Os ventos
Os ventos nas folhas
As poças
O reflexo nas poças
A multidão
Os olhos nas multidões

Os sons
Os sons nos silêncios
As tragédias
O mais importante das tragédias

Respirar
Respirar

Viver é intocável

Eclipse

julho 27, 2018

– Menino, abriram as laterais da banca, trocaram a luz. Ficou ótimo!
– Novo conceito. Trocamos tudo. Posição das revistas e dos jornais. Livros e coletâneas em evidência. Organização das balas e dos cigarros mais clara para mostrar nosso diferencial. E nada na frente mais.
– Ficou um espetáculo. E o músico aí do posto policial, contrataram também?
– Ele tocava no posto de gasolina, ajudamos e ele montou ali. Ótimo cantor, né? Gostou?
– Gente! Maravilhoso. Quem é ele!?
– Jesus Negão.

E com a lua vermelha em eclipse, pedestres seguiram e bêbados ficaram em seus caminhos. O sinal abriu sob aplausos na faixa, na calçada, na frente do posto policial.

Loving you is easy ‘cause you’re beautiful.

#cenascariocas

Seu Arnaldo

julho 21, 2018

O seu Arnaldo era o meu vizinho de muro. Era a única casa da rua em que a gente não tinha relação com as crianças. Porque não havia crianças. Seu Arnaldo era um senhor, que a mim parecia muito, mas muito velho. Provavelmente não tinha 60 na época. Mas éramos todas crianças que brincavam na rua, de pique-esconde, de queimada, de bet, de vôlei. No vôlei era o mais legal, porque a gente pendurava a rede entre uma lança de um portão e outro e fechava a rua. E para um carro passar a gente tinha que parar o jogo e os dois mais altos levantam a rede e ele seguia. A rua era nossa. Mas a gente era generoso.

Não lembro qual foi a primeira vez que o seu Arnaldo furou a nossa bola. Eu devia ter 8 anos. Os grandes já falavam que era perigoso jogar bola perto da casa do seu Arnaldo. Mas os amigos mais próximos estavam todos ali perto da casa dele. Não tinha jeito, a Lud e a Lili moravam quase em frente a minha casa. A Pati no quarteirão seguinte, mas na direção da casa dele. Geral estava entre um quarteirão e outro, e a casa do seu Arnaldo era a da esquina. A logística era propícia para montar a rede ali, entre a casa da tia Ieda e da Dona Mariquinha, que era minha outra vizinha de muro e dava outra história.

Eu só sei que o seu Arnaldo furava as bolas que caíam no quintal dele. Lembro da primeira vez que toquei a campainha pedindo a bola. Apareceu a mulher dele. Não lembro, mas podia chamar Eleonora. Eleonora abriu a porta com uma cara de “odeio criança” e falou que não viu bola nenhuma. Frustradas as tentativas de diplomacia, passamos a entrar no quintal pulando o muro em silêncio para procurar a bola. E descobrimos que ele mantinha um cemitério de bolas furadas no jardim. Uns três cadáveres foram resgatados nesse dia para serem enterrados com honras das famílias.

Mas o pior foi a vez que o seu Arnaldo tirou a Ximbica da gente. A Ximbica era uma jabuti que minha mãe adquiriu para curar minha asma. Ela já tinha feito de tudo. Pneumologista, purê quente nas costas, natação, Santo Expedito, Guilherme Arantes e tudo mais que ela acreditava que ia me curar. E alguém falou que jabuti dava jeito. Assim a Ximbica chegou lá em casa. Depois do Celito, um gato siamês que só ficava em cima do muro. E sumiu sem qualquer efetividade medicinal.

Mas a Ximbica era um jabuti fêmea em missão de cura. A gente desistia da bola pra ver a Ximbica rodar e rodar com o casco no chão. Ela comia alface e churrasco. Não brincava com a gente diretamente, a não ser quando deitava de costas. Era o brinquedo vivo da criançada (eu sei que não devia falar isso, mas estávamos na década de 80 e viajávamos no porta-malas). A Ximbica era também a pajé da nossa casa para minha mãe, com aquela cara tranquila e forte de xamã.. E sabe o que fez o seu Arnaldo? Denunciou a minha mãe pro Ibama. E perdemos a Ximbica no mesmo dia em que tive uma crise de asma. Mamãe não foi presa e me levou pro hospital.

Eis que a vida dá voltas. Desde que me mudei de apartamento recentemente, 30 anos depois de nunca mais ver o seu Arnaldo, dois meninos, netos da minha vizinha, brincam de bola no corredor. E a bola batendo na parede irrita, mas na porta gera outro tipo de sentimento. Ruim. Não vou alimentá-lo.

Acontece que eu simplesmente não consigo reclamar. Não consigo ligar pra portaria, não consigo escrever um bilhete, não consigo falar com a minha vizinha. Sei lá, explicar que trabalho em casa, recebo amigos em casa, a bola na parede incomoda, mas na porta me dá vontade de pegar, furar, e pregá-la no corredor feito um Cristo crucificado.

E não falo nada. A pior coisa que já fiz foi abrir a porta e olhar em silêncio. E ver em martírio os olhos das crianças irradiando medo e súplica. Só consigo sentir uma dor profunda e me ver nos olhos do seu Arnaldo. Que passe bem, se entre nós estiver. E que descanse em paz, se jaz no cemitério das bolas.

O gato e o buraco

maio 11, 2018

Era uma vez um buraco
O buraco era fundo
O buraco era escuro
O buraco era frio
O buraco apertava
O buraco doía
O buraco sentia

Um dia chegou o gato
O gato era leve
O gato era ágil
O gato era alegre
O gato brincava
O gato miava
O gato sorria

O gato viu o buraco
Caiu leve no fundo
Alcançou logo o escuro
Chegou intenso no frio
Pateou com desprezo o aperto

Se machucou.
Miou.
Pulou.
Sumiu.

O buraco perdeu um pedaço.

Sueli

janeiro 22, 2018

Sueli sabia a quantidade de pensamentos e movimentos errados que fazia todos os dias. Errado era sempre relativo, ela pensava, mas tinha que ter um ponto de referência. E adotou seu corpo e seu cotidiano como parâmetro. O que foi uma tragédia porque pareceu ainda tudo mais errado do que a comparação com o Osho, ou a Simone de Beauvoir, ou a Angela Davis, ou qualquer referência de correto que ela poderia crer que fosse boa. Ou pelo menos coerente com uma vida plena que ela achava que devia perseguir. E sinceramente, pra ela, ficou tudo mais difícil. Num primeiro momento houve a sensação de conexão, que todos os gurus adotados professavam e, claro, aquele era o caminho. O corpo, as sensações, os sentimentos. As ações? Uma tragédia. Tentava sempre de tudo, inclusive achar que cada dia era um dia, que renascer é agora e sempre, que o infinito é o momento de viver. Demitir o carrasco interno, substituir pela vovozinha fofa que traz chá de camomila e bolo de laranja, se abraçar, se acolher. Acreditava piamente que seria melhor, pra ela mesma, até pra chegar um dia a ser menos ranzinza com a cagação de regra sobre qualquer assunto, inclusive a vida dos outros. E começar a cagar suas próprias regras, como faziam Osho, Simone de Beauvoir e Angela Davis, com uma história e dignidade muito melhor que a dela, mas o importante era se conectar e viver a própria crença, o próprio desejo, desapegar, seguir, e quem sabe um dia contar uma boa história do que deve ser a vida para aqueles que não sabem, ou não entenderam ainda. E o mundo aquela bosta verde e marrom, fétida. Sua vida um pouco melhor, mas com cagadas em cataratas, caminhos errados, repetidos, tudo um grande cocô gigante e pouco saudável, o que falava muito sobre sua alimentação e a do mundo. E aí passou pela cabeça dela que talvez a vida seja só viver mesmo, sem muito sentido, ou com o sentido que ela queira dar. E se é algo bonito como ser de esquerda e gostar de plantas está bem. E está bem também morrer de preguiça de qualquer idiota que pense o contrário. E que está bem lutar pelo que se acredita, e está bem ser romântica, embora empiricamente seja um erro, e está bem achar que o grande problema do mundo é a cagação de regra, e ser empática com o mimimi, e estão ok suas escolhas, certas ou erradas, é simplesmente viver. O que não vai levá-la para lugar algum a não ser o próximo ano, e os 100 novos fios brancos, as rugas se apresentando, o Carnaval em doses mínimas, os dias com a família com mais afeto que conflito, a preguiça eterna da cagação de regra do mundo, e a própria cagação de regra que acha que o mundo não entendeu a importância de porra nenhuma. De saber que estão todos muito fodidos, cheio de conflitos, mas que foda-se a angústia de quem pode pagar uma psicanalista, que o mais importante pra ela é a desigualdade social. Embora ela mesma pague uma psicanalista e viva nessa contradição bizarra, de não poder mexer um palito pra fazer a vida dos pobres melhor, além de amar sua família conservadora e capitalista. O que Sueli podia fazer com isso? Com seu berço esplêndido, sua vida privilegiada e sua trajetória de descobertas? Podia salvar o mundo? Não. Podia convencer sua família? Não. Podia se sentir menos culpada? Não. E isso a tornaria mais filha da puta e parte do sistema? Provavelmente. Mas ela estava ali. Sem saber exatamente o que significava viver plenamente. Com desejo de muita coisa, fazendo um monte de besteiras todos os dias. E se sentindo demasiadamente humana.

#foratemer

maio 4, 2017

Tem gente que nasce com esse gosto doido de inconformidade. Que prova a rotina fácil, e acha aceitável, mas tem vício de não engolir injustiça. E até convive com ela na dose permitida que a repetição da desgraça anestesia. Mas o troço coça. Nos mais pacíficos faz chorar, nos menos, sobra pra muita gente. E é preciso conviver desconvivendo com essa dose cavalar de inaceitação. Para pensarmos sobre o sentido de existir. Para questionar o consumo consumindo a gente. Para entender que o dinheiro está indo para oito pessoas no mundo, o o resto da gente passa fome, morre e se mata, de verdade e virtualmente, na polaridade ingênua das redes sociais. Por isso inconformar-se é um bem. E dar sustância a isso, se informando, pensando, e estando junto dos outros inconformados, é dar passos num caminho junto, pra que mais gente viva melhor. Espero que com mais calma que violência. E consciente que calma é privilégio de quem tem palavra como respiro. Ar da maioria é no repique do chicote. Ou da bala. No Brasil especialmente.

Metamorfose

fevereiro 3, 2017

Gente que enxerga poesia no que os olhos encostam coleciona fantasias de sapo. Gente que sente dor de realidade come lagartas amargas. Presente é choro de flor com espinhos cantando pra virar borboleta.

Por onde ando

fevereiro 3, 2017

Harmonia, cruza Rodésia, Aspicuelta, Fidalga, Purpurina, Fradique, Inácio. Canoa na chapa, Omo no Dia%, sapato da Caz, caipirinha do Filial, Livraria da Vila e linguiça do Galinheiro. Engraçado a seletividade da memória na reconstrução de um caminho que já foi cotidiano. Fala das nossas escolhas diárias ou apenas manifesta as preferências de um tempo? E o que revelam essas lembranças sobre quem fomos, ou sobre quem somos? Que parte desse caminho permanece na decisão constante por uma coisa e não outra? Por que insistimos virar nas mesmas ruas que sempre decidimos virar, tendo tantas outras no percurso? Quem ficamos para trás e quem carregamos conosco no passado-presente de um passeio na Vila Madalena?

Vagão

outubro 14, 2016

Bianca chegou junto com o metrô na plataforma e entrou. Era o horário de mais movimento e ela mal se deu conta que tinha entrado num vagão normal, não exclusivo das mulheres. Estava cheio, mas não lotado. Distâncias confortáveis entre seu corpo e dos demais passageiros. Alguns conversavam, outros tantos mexiam em seus telefones. Ninguém lia. Na parada seguinte, a porta se abriu. Em seu peito um aperto. Olhava em volta, alerta. Tudo continuou bem. Gente saindo, gente entrando. Bianca destravou a respiração e percebeu que há muitos anos, no horário de pico, só andava no vagão das mulheres. Sem se preocupar com olhares lascivos, com perseguições na saída, com encoxadas súbitas, com toques “acidentais” em seu corpo. E que mesmo viajando num vagão tranquilo, onde homens, mulheres, pessoas mais velhas e crianças seguiam sem qualquer incidente, estava tensa, como todo santo dia em cada passo na rua esburacada ou na calçada de pedra portuguesa. Convivendo com situações de apreensão ou risco real, nas vias, estações, paradas e transportes dessa e de qualquer outra cidade do mundo por onde tinha passado. O vagão das mulheres era para Bianca o vagão de um mundo sem medo.