O gato e o buraco

maio 11, 2018

Era uma vez um buraco
O buraco era fundo
O buraco era escuro
O buraco era frio
O buraco apertava
O buraco doía
O buraco sentia

Um dia chegou o gato
O gato era leve
O gato era ágil
O gato era alegre
O gato brincava
O gato miava
O gato sorria

O gato viu o buraco
Caiu leve no fundo
Alcançou logo o escuro
Chegou intenso no frio
Pateou com desprezo o aperto

Se machucou.
Miou.
Pulou.
Sumiu.

O buraco perdeu um pedaço.

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Sueli

janeiro 22, 2018

Sueli sabia a quantidade de pensamentos e movimentos errados que fazia todos os dias. Errado era sempre relativo, ela pensava, mas tinha que ter um ponto de referência. E adotou seu corpo e seu cotidiano como parâmetro. O que foi uma tragédia porque pareceu ainda tudo mais errado do que a comparação com o Osho, ou a Simone de Beauvoir, ou a Angela Davis, ou qualquer referência de correto que ela poderia crer que fosse boa. Ou pelo menos coerente com uma vida plena que ela achava que devia perseguir. E sinceramente, pra ela, ficou tudo mais difícil. Num primeiro momento houve a sensação de conexão, que todos os gurus adotados professavam e, claro, aquele era o caminho. O corpo, as sensações, os sentimentos. As ações? Uma tragédia. Tentava sempre de tudo, inclusive achar que cada dia era um dia, que renascer é agora e sempre, que o infinito é o momento de viver. Demitir o carrasco interno, substituir pela vovozinha fofa que traz chá de camomila e bolo de laranja, se abraçar, se acolher. Acreditava piamente que seria melhor, pra ela mesma, até pra chegar um dia a ser menos ranzinza com a cagação de regra sobre qualquer assunto, inclusive a vida dos outros. E começar a cagar suas próprias regras, como faziam Osho, Simone de Beauvoir e Angela Davis, com uma história e dignidade muito melhor que a dela, mas o importante era se conectar e viver a própria crença, o próprio desejo, desapegar, seguir, e quem sabe um dia contar uma boa história do que deve ser a vida para aqueles que não sabem, ou não entenderam ainda. E o mundo aquela bosta verde e marrom, fétida. Sua vida um pouco melhor, mas com cagadas em cataratas, caminhos errados, repetidos, tudo um grande cocô gigante e pouco saudável, o que falava muito sobre sua alimentação e a do mundo. E aí passou pela cabeça dela que talvez a vida seja só viver mesmo, sem muito sentido, ou com o sentido que ela queira dar. E se é algo bonito como ser de esquerda e gostar de plantas está bem. E está bem também morrer de preguiça de qualquer idiota que pense o contrário. E que está bem lutar pelo que se acredita, e está bem ser romântica, embora empiricamente seja um erro, e está bem achar que o grande problema do mundo é a cagação de regra, e ser empática com o mimimi, e estão ok suas escolhas, certas ou erradas, é simplesmente viver. O que não vai levá-la para lugar algum a não ser o próximo ano, e os 100 novos fios brancos, as rugas se apresentando, o Carnaval em doses mínimas, os dias com a família com mais afeto que conflito, a preguiça eterna da cagação de regra do mundo, e a própria cagação de regra que acha que o mundo não entendeu a importância de porra nenhuma. De saber que estão todos muito fodidos, cheio de conflitos, mas que foda-se a angústia de quem pode pagar uma psicanalista, que o mais importante pra ela é a desigualdade social. Embora ela mesma pague uma psicanalista e viva nessa contradição bizarra, de não poder mexer um palito pra fazer a vida dos pobres melhor, além de amar sua família conservadora e capitalista. O que Sueli podia fazer com isso? Com seu berço esplêndido, sua vida privilegiada e sua trajetória de descobertas? Podia salvar o mundo? Não. Podia convencer sua família? Não. Podia se sentir menos culpada? Não. E isso a tornaria mais filha da puta e parte do sistema? Provavelmente. Mas ela estava ali. Sem saber exatamente o que significava viver plenamente. Com desejo de muita coisa, fazendo um monte de besteiras todos os dias. E se sentindo demasiadamente humana.

#foratemer

maio 4, 2017

Tem gente que nasce com esse gosto doido de inconformidade. Que prova a rotina fácil, e acha aceitável, mas tem vício de não engolir injustiça. E até convive com ela na dose permitida que a repetição da desgraça anestesia. Mas o troço coça. Nos mais pacíficos faz chorar, nos menos, sobra pra muita gente. E é preciso conviver desconvivendo com essa dose cavalar de inaceitação. Para pensarmos sobre o sentido de existir. Para questionar o consumo consumindo a gente. Para entender que o dinheiro está indo para oito pessoas no mundo, o o resto da gente passa fome, morre e se mata, de verdade e virtualmente, na polaridade ingênua das redes sociais. Por isso inconformar-se é um bem. E dar sustância a isso, se informando, pensando, e estando junto dos outros inconformados, é dar passos num caminho junto, pra que mais gente viva melhor. Espero que com mais calma que violência. E consciente que calma é privilégio de quem tem palavra como respiro. Ar da maioria é no repique do chicote. Ou da bala. No Brasil especialmente.

Metamorfose

fevereiro 3, 2017

Gente que enxerga poesia no que os olhos encostam coleciona fantasias de sapo. Gente que sente dor de realidade come lagartas amargas. Presente é choro de flor com espinhos cantando pra virar borboleta.

Por onde ando

fevereiro 3, 2017

Harmonia, cruza Rodésia, Aspicuelta, Fidalga, Purpurina, Fradique, Inácio. Canoa na chapa, Omo no Dia%, sapato da Caz, caipirinha do Filial, Livraria da Vila e linguiça do Galinheiro. Engraçado a seletividade da memória na reconstrução de um caminho que já foi cotidiano. Fala das nossas escolhas diárias ou apenas manifesta as preferências de um tempo? E o que revelam essas lembranças sobre quem fomos, ou sobre quem somos? Que parte desse caminho permanece na decisão constante por uma coisa e não outra? Por que insistimos virar nas mesmas ruas que sempre decidimos virar, tendo tantas outras no percurso? Quem ficamos para trás e quem carregamos conosco no passado-presente de um passeio na Vila Madalena?

Vagão

outubro 14, 2016

Bianca chegou junto com o metrô na plataforma e entrou. Era o horário de mais movimento e ela mal se deu conta que tinha entrado num vagão normal, não exclusivo das mulheres. Estava cheio, mas não lotado. Distâncias confortáveis entre seu corpo e dos demais passageiros. Alguns conversavam, outros tantos mexiam em seus telefones. Ninguém lia. Na parada seguinte, a porta se abriu. Em seu peito um aperto. Olhava em volta, alerta. Tudo continuou bem. Gente saindo, gente entrando. Bianca destravou a respiração e percebeu que há muitos anos, no horário de pico, só andava no vagão das mulheres. Sem se preocupar com olhares lascivos, com perseguições na saída, com encoxadas súbitas, com toques “acidentais” em seu corpo. E que mesmo viajando num vagão tranquilo, onde homens, mulheres, pessoas mais velhas e crianças seguiam sem qualquer incidente, estava tensa, como todo santo dia em cada passo na rua esburacada ou na calçada de pedra portuguesa. Convivendo com situações de apreensão ou risco real, nas vias, estações, paradas e transportes dessa e de qualquer outra cidade do mundo por onde tinha passado. O vagão das mulheres era para Bianca o vagão de um mundo sem medo.

Ic

abril 7, 2016

Um pensamento soluço é pior que engasgo de angústia. Quanta essência se perde na saraivada de letras que consomem nossas vidas? Matematicamente, quanto fazemos de fato além de sermos um rio de gente evaporando (vi)da-dos para as nuvens que G e F transformam em chuva de dinheiro para eles e + 1% de $? Somos quantos à deriva? Há pausa, espelho, respiro, reflexão, questionamento, auto-crítica nessa onda gigante que arrasa feroz e vorazmente nossa capacidade de ver, ouvir, tocar, gostar e experimentar? Sentir, afinal. O outro, nós mesmos, o que nos aproxima, o que nos diferencia. Quanto dedo em riste, grito de ódio, bala perdida, soco encontrado, marcas de dor e corpos no chão precisamos colecionar para forjarmos a felicidade? A sua alegria é a desgraça de alguém?

Palavra é água tomada do avesso com respiração presa. E não passa.

Filosofalsos

janeiro 13, 2016

O mundo, a partir da perspectiva humana, é esse desequilíbrio maravilhoso, ou trágico, entre o achismo, a crença e a ciência. E em cada um deles, em pequenas proporções, brota a inventividade, as culturas, que na trégua da arrogância e na permissão do sentimento, dão sentido ao existir. Loucura é viver no autoritarismo das verdades, sem perceber, respeitar e acolher a plenitude das possibilidades da não violência.

Vício

dezembro 13, 2015

Tem coisa que cisca a gente. Coça, roça, desajeita. Até que dói. E de saber letra faz a coisa querer forma. Empurra, insiste, incomoda. Fica ali. À espreita. E se não vira escrito vira briga. Quando rendida procura papel, caneta, teclado pra recostar. Cansa até encontrar palavra. E a palavra é feito vício. Vai uma, vai outra, puxa mais, e vai. E quando vai, já foi você junto. Querendo mais do que te ciscou e você nem sabia, mas era desenho da coisa primeira. Feito larva. Feito girino. Feito broto de orquídea. Ninguém possuído de palavra pensa em parar de ser.

Copacabana

dezembro 12, 2015

Quantas fragilidades cabem em uma cena?

Ele, negro, enorme, forte, faxineiro. Ela, loira, mínima, fora de si. “Me bate, filho da puta. Me bate”. Ela agarrada à camiseta dele, machucando-o de todas as formas que seu frágil corpo permite. “Me bate se você for homem. Quero ver”. Ele tentando se desvencilhar de todas as formas, olhando em volta, olhando para ela, dizendo alguma coisa que não se escuta. Umas cem pessoas passando, parando ou sentadas, observando. “Briga de casal”, comentou um garçon. “A mulher do Costa que era assim”, respondeu o outro. “Está melhor aqui fora que lá dentro”, diz o cliente trocando de mesa, reclamando da programação da TV.

Dois seguranças do quarteirão (!) se aproximam e tentam separá-la dele. “Bate, bate, bate filho da puta”. Ela rasga a camisa dele, o que facilita sua fuga para dentro do prédio. Ela se agiganta e soca a porta de vidro da portaria que se estilhaça no chão. Todos escutam, observam, comentam.

A polícia chega. Ela conta que o faxineiro não permitiu sua entrada no prédio, que tinha dormido num apartamento ali na noite anterior, que suas coisas estavam lá. Ele talvez tenha explicado que o morador pediu que sua entrada não fosse permitida, e ele impediu que ela entrasse, retirou-a da portaria à força. Cumpriu as ordens do morador que a convidou no dia anterior para passar a noite ali e a deixou sem seus documentos, suas roupas e sabe-se lá mais sem o que.

Alguém sai do prédio com uma sacola de roupas. “Filho da puta”, ela segue. “Filha da puta é você, sua vadia”, grita uma outra voz masculina que a visão não alcança. Ela continua chorando e gritando. A polícia ameaça levá-la à delegacia por dano ao patrimônio, ela berra que o faxineiro não a deixou entrar, agrediu-a, “esse filho da puta”. A polícia vai embora. A moça frágil senta na calçada, chora, grita vez ou outra e passa uma parte da noite ali.

O faxineiro negro entra, talvez chore, talvez sofra, talvez vá dormir pensando naquilo e no lixo que precisa recolher na manhã seguinte.

Todos olham, passam, comentam.