#foratemer

maio 4, 2017

Tem gente que nasce com esse gosto doido de inconformidade. Que prova a rotina fácil, e acha aceitável, mas tem vício de não engolir injustiça. E até convive com ela na dose permitida que a repetição da desgraça anestesia. Mas o troço coça. Nos mais pacíficos faz chorar, nos menos, sobra pra muita gente. E é preciso conviver desconvivendo com essa dose cavalar de inaceitação. Para pensarmos sobre o sentido de existir. Para questionar o consumo consumindo a gente. Para entender que o dinheiro está indo para oito pessoas no mundo, o o resto da gente passa fome, morre e se mata, de verdade e virtualmente, na polaridade ingênua das redes sociais. Por isso inconformar-se é um bem. E dar sustância a isso, se informando, pensando, e estando junto dos outros inconformados, é dar passos num caminho junto, pra que mais gente viva melhor. Espero que com mais calma que violência. E consciente que calma é privilégio de quem tem palavra como respiro. Ar da maioria é no repique do chicote. Ou da bala. No Brasil especialmente.

Metamorfose

fevereiro 3, 2017

Gente que enxerga poesia no que os olhos encostam coleciona fantasias de sapo. Gente que sente dor de realidade come lagartas amargas. Presente é choro de flor com espinhos cantando pra virar borboleta.

Por onde ando

fevereiro 3, 2017

Harmonia, cruza Rodésia, Aspicuelta, Fidalga, Purpurina, Fradique, Inácio. Canoa na chapa, Omo no Dia%, sapato da Caz, caipirinha do Filial, Livraria da Vila e linguiça do Galinheiro. Engraçado a seletividade da memória na reconstrução de um caminho que já foi cotidiano. Fala das nossas escolhas diárias ou apenas manifesta as preferências de um tempo? E o que revelam essas lembranças sobre quem fomos, ou sobre quem somos? Que parte desse caminho permanece na decisão constante por uma coisa e não outra? Por que insistimos virar nas mesmas ruas que sempre decidimos virar, tendo tantas outras no percurso? Quem ficamos para trás e quem carregamos conosco no passado-presente de um passeio na Vila Madalena?

Vagão

outubro 14, 2016

Bianca chegou junto com o metrô na plataforma e entrou. Era o horário de mais movimento e ela mal se deu conta que tinha entrado num vagão normal, não exclusivo das mulheres. Estava cheio, mas não lotado. Distâncias confortáveis entre seu corpo e dos demais passageiros. Alguns conversavam, outros tantos mexiam em seus telefones. Ninguém lia. Na parada seguinte, a porta se abriu. Em seu peito um aperto. Olhava em volta, alerta. Tudo continuou bem. Gente saindo, gente entrando. Bianca destravou a respiração e percebeu que há muitos anos, no horário de pico, só andava no vagão das mulheres. Sem se preocupar com olhares lascivos, com perseguições na saída, com encoxadas súbitas, com toques “acidentais” em seu corpo. E que mesmo viajando num vagão tranquilo, onde homens, mulheres, pessoas mais velhas e crianças seguiam sem qualquer incidente, estava tensa, como todo santo dia em cada passo na rua esburacada ou na calçada de pedra portuguesa. Convivendo com situações de apreensão ou risco real, nas vias, estações, paradas e transportes dessa e de qualquer outra cidade do mundo por onde tinha passado. O vagão das mulheres era para Bianca o vagão de um mundo sem medo.

Ic

abril 7, 2016

Um pensamento soluço é pior que engasgo de angústia. Quanta essência se perde na saraivada de letras que consomem nossas vidas? Matematicamente, quanto fazemos de fato além de sermos um rio de gente evaporando (vi)da-dos para as nuvens que G e F transformam em chuva de dinheiro para eles e + 1% de $? Somos quantos à deriva? Há pausa, espelho, respiro, reflexão, questionamento, auto-crítica nessa onda gigante que arrasa feroz e vorazmente nossa capacidade de ver, ouvir, tocar, gostar e experimentar? Sentir, afinal. O outro, nós mesmos, o que nos aproxima, o que nos diferencia. Quanto dedo em riste, grito de ódio, bala perdida, soco encontrado, marcas de dor e corpos no chão precisamos colecionar para forjarmos a felicidade? A sua alegria é a desgraça de alguém?

Palavra é água tomada do avesso com respiração presa. E não passa.

Filosofalsos

janeiro 13, 2016

O mundo, a partir da perspectiva humana, é esse desequilíbrio maravilhoso, ou trágico, entre o achismo, a crença e a ciência. E em cada um deles, em pequenas proporções, brota a inventividade, as culturas, que na trégua da arrogância e na permissão do sentimento, dão sentido ao existir. Loucura é viver no autoritarismo das verdades, sem perceber, respeitar e acolher a plenitude das possibilidades da não violência.

Vício

dezembro 13, 2015

Tem coisa que cisca a gente. Coça, roça, desajeita. Até que dói. E de saber letra faz a coisa querer forma. Empurra, insiste, incomoda. Fica ali. À espreita. E se não vira escrito vira briga. Quando rendida procura papel, caneta, teclado pra recostar. Cansa até encontrar palavra. E a palavra é feito vício. Vai uma, vai outra, puxa mais, e vai. E quando vai, já foi você junto. Querendo mais do que te ciscou e você nem sabia, mas era desenho da coisa primeira. Feito larva. Feito girino. Feito broto de orquídea. Ninguém possuído de palavra pensa em parar de ser.

Copacabana

dezembro 12, 2015

Quantas fragilidades cabem em uma cena?

Ele, negro, enorme, forte, faxineiro. Ela, loira, mínima, fora de si. “Me bate, filho da puta. Me bate”. Ela agarrada à camiseta dele, machucando-o de todas as formas que seu frágil corpo permite. “Me bate se você for homem. Quero ver”. Ele tentando se desvencilhar de todas as formas, olhando em volta, olhando para ela, dizendo alguma coisa que não se escuta. Umas cem pessoas passando, parando ou sentadas, observando. “Briga de casal”, comentou um garçon. “A mulher do Costa que era assim”, respondeu o outro. “Está melhor aqui fora que lá dentro”, diz o cliente trocando de mesa, reclamando da programação da TV.

Dois seguranças do quarteirão (!) se aproximam e tentam separá-la dele. “Bate, bate, bate filho da puta”. Ela rasga a camisa dele, o que facilita sua fuga para dentro do prédio. Ela se agiganta e soca a porta de vidro da portaria que se estilhaça no chão. Todos escutam, observam, comentam.

A polícia chega. Ela conta que o faxineiro não permitiu sua entrada no prédio, que tinha dormido num apartamento ali na noite anterior, que suas coisas estavam lá. Ele talvez tenha explicado que o morador pediu que sua entrada não fosse permitida, e ele impediu que ela entrasse, retirou-a da portaria à força. Cumpriu as ordens do morador que a convidou no dia anterior para passar a noite ali e a deixou sem seus documentos, suas roupas e sabe-se lá mais sem o que.

Alguém sai do prédio com uma sacola de roupas. “Filho da puta”, ela segue. “Filha da puta é você, sua vadia”, grita uma outra voz masculina que a visão não alcança. Ela continua chorando e gritando. A polícia ameaça levá-la à delegacia por dano ao patrimônio, ela berra que o faxineiro não a deixou entrar, agrediu-a, “esse filho da puta”. A polícia vai embora. A moça frágil senta na calçada, chora, grita vez ou outra e passa uma parte da noite ali.

O faxineiro negro entra, talvez chore, talvez sofra, talvez vá dormir pensando naquilo e no lixo que precisa recolher na manhã seguinte.

Todos olham, passam, comentam.

Desequilíbrio

dezembro 10, 2015

Faz falta uma dor não fabricada. Uma raiva do vazio, da incapacidade de sentir o vazio, faz falta. Faz falta uma angústia não notícia. O silêncio do discernimento. A falta consciente faz falta.

O cardápio de sentimentos forjados na embriaguez jornalística sobra. A seletividade da tragédia sobra. A invisibilidade da injustiça sobra. O ódio oportunista sobra. A magia das idealizações fáceis sobra. A incapacidade de perceber o que comove sobra. Você projetado em qualquer coisa sobra.

O outro e sua realidade faltam.

A situação política deixa tonto. A morte do Rio Doce comove. A disputa pela hegemonia mundial faz pensar no fim do mundo. A revolta dos estudantes comove. Assumir posição na conjuntura exige. A reação das mulheres comove. A indignação por condições humanas na sua esquina falta. O ódio pelo diferente sobra. Os refugiados e suas mortes comovem. A opinião sobre a imigração sobra. Os pretos, pobres e suas juventudes assassinadas comovem. O desejo de vingança cego sobra. O incêndio dos recurso naturais labaredeiam.

A desconexão se alastra.

E seguimos inertes, ativos, confusos, perdidos, reativos, pensando-nos presentes, sendo a história não contada.

Sonhos

setembro 2, 2015

Estávamos o mundo num dia incrível de inverno-veraneio em Copacabana e as ondas começaram a ficar menos divertidas e mais agressivas. Era difícil voltar à areia. Nublou e o céu e quase anoiteceu. O pânico cresceu gradativamente e as nuvens viraram a fumaça preta que matou Renly Baratheon na primeira (?) temporada do Game of Thrones. Aos poucos tomaram forma dos dragões e perseguiram cirurgicamente qualquer um que movia o polegar opositor. Matavam todos, implacavelmente e numa velocidade impressionante. Matavam e falavam: ‘Para que saibam. Somos leucócitos, glóbulos brancos, defensores da vida. Viemos salvar o universo. Os humanos são o vírus da Terra. E a célula azul transgênica precisa morrer’.