Vagão

outubro 14, 2016

Bianca chegou junto com o metrô na plataforma e entrou. Era o horário de mais movimento e ela mal se deu conta que tinha entrado num vagão normal, não exclusivo das mulheres. Estava cheio, mas não lotado. Distâncias confortáveis entre seu corpo e dos demais passageiros. Alguns conversavam, outros tantos mexiam em seus telefones. Ninguém lia. Na parada seguinte, a porta se abriu. Em seu peito um aperto. Olhava em volta, alerta. Tudo continuou bem. Gente saindo, gente entrando. Bianca destravou a respiração e percebeu que há muitos anos, no horário de pico, só andava no vagão das mulheres. Sem se preocupar com olhares lascivos, com perseguições na saída, com encoxadas súbitas, com toques “acidentais” em seu corpo. E que mesmo viajando num vagão tranquilo, onde homens, mulheres, pessoas mais velhas e crianças seguiam sem qualquer incidente, estava tensa, como todo santo dia em cada passo na rua esburacada ou na calçada de pedra portuguesa. Convivendo com situações de apreensão ou risco real, nas vias, estações, paradas e transportes dessa e de qualquer outra cidade do mundo por onde tinha passado. O vagão das mulheres era para Bianca o vagão de um mundo sem medo.

Ic

abril 7, 2016

Um pensamento soluço é pior que engasgo de angústia. Quanta essência se perde na saraivada de letras que consomem nossas vidas? Matematicamente, quanto fazemos de fato além de sermos um rio de gente evaporando (vi)da-dos para as nuvens que G e F transformam em chuva de dinheiro para eles e + 1% de $? Somos quantos à deriva? Há pausa, espelho, respiro, reflexão, questionamento, auto-crítica nessa onda gigante que arrasa feroz e vorazmente nossa capacidade de ver, ouvir, tocar, gostar e experimentar? Sentir, afinal. O outro, nós mesmos, o que nos aproxima, o que nos diferencia. Quanto dedo em riste, grito de ódio, bala perdida, soco encontrado, marcas de dor e corpos no chão precisamos colecionar para forjarmos a felicidade? A sua alegria é a desgraça de alguém?

Palavra é água tomada do avesso com respiração presa. E não passa.

Filosofalsos

janeiro 13, 2016

O mundo, a partir da perspectiva humana, é esse desequilíbrio maravilhoso, ou trágico, entre o achismo, a crença e a ciência. E em cada um deles, em pequenas proporções, brota a inventividade, as culturas, que na trégua da arrogância e na permissão do sentimento, dão sentido ao existir. Loucura é viver no autoritarismo das verdades, sem perceber, respeitar e acolher a plenitude das possibilidades da não violência.

Vício

dezembro 13, 2015

Tem coisa que cisca a gente. Coça, roça, desajeita. Até que dói. E de saber letra faz a coisa querer forma. Empurra, insiste, incomoda. Fica ali. À espreita. E se não vira escrito vira briga. Quando rendida procura papel, caneta, teclado pra recostar. Cansa até encontrar palavra. E a palavra é feito vício. Vai uma, vai outra, puxa mais, e vai. E quando vai, já foi você junto. Querendo mais do que te ciscou e você nem sabia, mas era desenho da coisa primeira. Feito larva. Feito girino. Feito broto de orquídea. Ninguém possuído de palavra pensa em parar de ser.

Copacabana

dezembro 12, 2015

Quantas fragilidades cabem em uma cena?

Ele, negro, enorme, forte, faxineiro. Ela, loira, mínima, fora de si. “Me bate, filho da puta. Me bate”. Ela agarrada à camiseta dele, machucando-o de todas as formas que seu frágil corpo permite. “Me bate se você for homem. Quero ver”. Ele tentando se desvencilhar de todas as formas, olhando em volta, olhando para ela, dizendo alguma coisa que não se escuta. Umas cem pessoas passando, parando ou sentadas, observando. “Briga de casal”, comentou um garçon. “A mulher do Costa que era assim”, respondeu o outro. “Está melhor aqui fora que lá dentro”, diz o cliente trocando de mesa, reclamando da programação da TV.

Dois seguranças do quarteirão (!) se aproximam e tentam separá-la dele. “Bate, bate, bate filho da puta”. Ela rasga a camisa dele, o que facilita sua fuga para dentro do prédio. Ela se agiganta e soca a porta de vidro da portaria que se estilhaça no chão. Todos escutam, observam, comentam.

A polícia chega. Ela conta que o faxineiro não permitiu sua entrada no prédio, que tinha dormido num apartamento ali na noite anterior, que suas coisas estavam lá. Ele talvez tenha explicado que o morador pediu que sua entrada não fosse permitida, e ele impediu que ela entrasse, retirou-a da portaria à força. Cumpriu as ordens do morador que a convidou no dia anterior para passar a noite ali e a deixou sem seus documentos, suas roupas e sabe-se lá mais sem o que.

Alguém sai do prédio com uma sacola de roupas. “Filho da puta”, ela segue. “Filha da puta é você, sua vadia”, grita uma outra voz masculina que a visão não alcança. Ela continua chorando e gritando. A polícia ameaça levá-la à delegacia por dano ao patrimônio, ela berra que o faxineiro não a deixou entrar, agrediu-a, “esse filho da puta”. A polícia vai embora. A moça frágil senta na calçada, chora, grita vez ou outra e passa uma parte da noite ali.

O faxineiro negro entra, talvez chore, talvez sofra, talvez vá dormir pensando naquilo e no lixo que precisa recolher na manhã seguinte.

Todos olham, passam, comentam.

Desequilíbrio

dezembro 10, 2015

Faz falta uma dor não fabricada. Uma raiva do vazio, da incapacidade de sentir o vazio, faz falta. Faz falta uma angústia não notícia. O silêncio do discernimento. A falta consciente faz falta.

O cardápio de sentimentos forjados na embriaguez jornalística sobra. A seletividade da tragédia sobra. A invisibilidade da injustiça sobra. O ódio oportunista sobra. A magia das idealizações fáceis sobra. A incapacidade de perceber o que comove sobra. Você projetado em qualquer coisa sobra.

O outro e sua realidade faltam.

A situação política deixa tonto. A morte do Rio Doce comove. A disputa pela hegemonia mundial faz pensar no fim do mundo. A revolta dos estudantes comove. Assumir posição na conjuntura exige. A reação das mulheres comove. A indignação por condições humanas na sua esquina falta. O ódio pelo diferente sobra. Os refugiados e suas mortes comovem. A opinião sobre a imigração sobra. Os pretos, pobres e suas juventudes assassinadas comovem. O desejo de vingança cego sobra. O incêndio dos recurso naturais labaredeiam.

A desconexão se alastra.

E seguimos inertes, ativos, confusos, perdidos, reativos, pensando-nos presentes, sendo a história não contada.

Sonhos

setembro 2, 2015

Estávamos o mundo num dia incrível de inverno-veraneio em Copacabana e as ondas começaram a ficar menos divertidas e mais agressivas. Era difícil voltar à areia. Nublou e o céu e quase anoiteceu. O pânico cresceu gradativamente e as nuvens viraram a fumaça preta que matou Renly Baratheon na primeira (?) temporada do Game of Thrones. Aos poucos tomaram forma dos dragões e perseguiram cirurgicamente qualquer um que movia o polegar opositor. Matavam todos, implacavelmente e numa velocidade impressionante. Matavam e falavam: ‘Para que saibam. Somos leucócitos, glóbulos brancos, defensores da vida. Viemos salvar o universo. Os humanos são o vírus da Terra. E a célula azul transgênica precisa morrer’.

Cambio

agosto 29, 2015

Um banco. Uma fila. Muita gente na fila. Muito estranho para um dia 28. Oito pessoas. Sete com celulares em punho. O “um” funcionário para o atendimento da oitava pessoa – primeira da fila – pára e solicita aos demais que parem de mexer em seus celulares. Cinco obedecem, um não entende e outra ignora. O funcionário tenta achar a regra impressa enquanto explica para o inconformado. A indiferente segue movendo dedos velozmente. Os cinco se entreolham confundidos das próprias expressões faciais. Não sabem se riem, se ficam putos, se olham para a indiferente ou se acalmam o inconformado. O funcionário vai até a indiferente, que toma um susto. Aumenta o tom de voz, os demais se viram, o inconformado toma as dores, o que estava sendo atendido não acredita. O inconformado está claramente revoltado, mas não mais que o que está sendo atendido. Dois seguranças se aproximam. A indiferente se afasta e continua mexendo no celular. O desconforto ganha volume, dois tentam se aproveitar da confusão para ganhar um lugar na fila. Outros três do caixa eletrônico se envolvem e o funcionário agita os papéis com as regras. Ouve-se um tiro. Depois outro. E mais outro. O funcionário joga os papéis pra cima. Os papéis se tingem de vermelho. A indiferente sai do banco. O dólar sobe mais 10 centavos. Fim da fila. Cambio.

Carta ao Papai Noel

novembro 17, 2014

Querido Papai Noel.

Cansei do mundo real. Cansei da velocidade, da compulsão, da correria. Cansei da falta de tempo, do excesso de verdades, das vaidades, da importância que as coisas desimportantes ganharam. Quero um mundo ao contrário. Quero de volta a infância, a calma, o riso, o balanço do parquinho. Quero acreditar em todas as fantasias, a começar por você.

Essa cartinha é um manifesto lúcido de alguém que crê fielmente que você existe. Vou colocar dentro de um pé-de-meia velho colado na lareira que eu desenhei hoje mesmo na parede. Apesar dos 36 graus lá fora. Mas não se preocupe porque ao lado dela eu pintei um freezer. E deixei aberto. Estou tentando equilibrar as coisas por aqui.

Dois presentes eu já anunciei no Facebook. Se o algorítimo não me ferrou, você já deve ter visto. Um anão de jardim igual ao do pai da Amelie Poulain e um nokia com jogo da minhoquinha. Prefiro prata, mas se não achar pode ser preto. O anão tem que ser igualzinho. Blusa verde, calça vermelha, barba e bigodes brancos. A bochecha dele é rosa.

Sobre este outro desejo eu preciso te contar. Um dia fui dormir mentalizando a frase “o que eu quero na minha vida”. Minha terapeuta falou que era bom fazer isso antes de dormir. “Mentaliza o que você quer e você vai acordar com a resposta que precisa”, ela disse. E eu acordei com uma convicção realmente impressionante. Quero uma bola de vôlei. Pode ser Mizuno, porque as outras assam o braço. E prefiro manchete a toque.

Mas sinto saudades de outras brincadeiras além do vôlei. Corda, pogobol, papel de carta e canetas coloridas. Se tiver adesivo pequeno e brilhante vou achar mais legal ainda. Também quero coisas pra brincar de boneca, mas dessa vez a boneca sou eu, então tem que ser grande, maior que aquela que era do meu tamanho quando eu tinha quatro anos. O triplo dela pra cima, o dobro pros lados. Vestidos coloridos, batom, brinco de argola, pulseiras e colar. Esmalte eu não sei passar direito, mas minhas bonecas nunca reclamaram, então traz.

Quero umas coisas meio abstratas, que eu acho melhor pedir pra Deus, Yemanjá ou Santa Luzia, mas já que estou aqui, não custa falar. Vai que… Tipo, que meus amigos demitam seus carrascos internos. Que convivam com seus monstros, igual no Monstros S.A. Ia pedir isso pra todo mundo, mas cansei da megalomania também. Ajuda meus amigos que já está bom. Ajude-os a contratar a moça boa que faz carinho e traz bolo de fubá com chá de maçã pro lugar do cara do chicote. Explica que quanto menos julgamento e martírio, mais o dia fica bonito. Mesmo com chuva.

Faça-os comer bolo de fubá e tomar chá de maçã da moça carinhosa. Incansavelmente.

Cuide bem das renas, distribua a renda com os anões. E dê um beijo na sua velha.

Felicidades pra você, Papai Noel! Tudo de bom!

Carol

Helena

novembro 2, 2014

Helena procurava alguém capaz de amar. Alguém que pudesse se entregar sem medo. Que soubesse que ninguém é perfeito. Helena procurava alguém que transformasse fantasia em inventividade, que fizesse do real um desafio eterno e intenso do encantamento pela vida. Alguém que topasse seguir com ela pela floresta escura, enfrentando seus medos, jogando luz sobre suas sombras. Alguém capaz de perdoar a si próprio e ainda mais aos outros. Alguém que descobrisse seu feminino sem atacar sua vontade de jogar bola de gude. Que pudesse admirar seu caminho, abraçar sua dor, cuidar das suas feridas sem jamais ignorá-las. Alguém capaz de fazê-la acreditar que o sofrimento já passou, que ela era linda e que merecia ser feliz.

Ela sonhou. Acordou. Abriu e fechou os olhos. Sorriu. O rastro de quem procurava ficou em seu peito. E deixou mais fácil o caminho. Helena assoviou bachianas nº 5, se espreguiçou e foi andar de bicicleta na praia de Botafogo.