Jalapão: a roubada que virou abóbora

Com um jipe, um GPS e uma máquina fotográfica decente eu poderia ser feliz para sempre. No Jalapão especialmente. Quando contei para um amigo que ia pra lá, ele perguntou se eu gostava de turismo de aventura. Eu respondi que sim, mas deveria ter dito: “aventura é legal, mas eu gosto mesmo é de turismo roubada”.

Todo mundo avisou. O guia Quatro Rodas, um outro amigo, os blogs. Mas quem disse o contrário foi a Dona Lázara. Ela e o Seu Noly são proprietários de uma pousada, um restaurante e uma fazenda de produção de leite em Ponte Alta do Tocantins, mais conhecido como “O Portal do Jalapão”. Ele é paulista e durante muitos anos vendeu ar condicionados, inclusive em Brasília, mas cansou de ser roubado e foi pro Jalapão. Já eu, fissurada por roubadas, fui também. E de carro. De carro não. De carro pequeno.

“Carro pequeno, dá até dor no coração…”
…diria o Veinho, que é de Mateiros e tem uma D20. Ah, uma D20. O que uma D20 faz por você não tem preço. No Jalapão especialmente. Mas a Dona Lázara, ao contrário do Veinho, dos blogs, do outro amigo e do guia Quatro Rodas, olhou bem atentamente para o carro pequeno, mais tarde apelidado de JalaPalio, e disse: “dá pra ir. É só pegar essa estrada saindo aqui, depois andar 14 quilômetros ali e seguir o rumo da Cachoeira da Fumaça”. Era o nosso primeiro dia depois de uma viagem tranquila e bonita de Palmas à Ponte Alta, com muitos chapadões, o rio Tocantins logo ali, uma parada na cidade histórica de Porto Nacional e a cena mais engraçada de todas. Um cara no teto de sua picape buscando sinal de celular na estrada. E ainda tem gente que pergunta pra que regime público nas telecomunicações. Bom, mas tudo ia muito bem até a Dona Lázara proferir as três palavras mágicas: “dá pra ir”. Os três monossílabos, mais o “aqui e ali” e os 14 km criaram em nós um sentimento de auto-confiança incontrolável. E fomos.

Living and learning
A primeira lição que se aprende no Jalapão é que auto-confiança nenhuma deve substituir a humildade. Aliás, vários capítulos desse épico versarão sobre essa máxima. A segunda é que certamente há uma lógica intrínseca do “aqui e ali” com a direita, a esquerda e o em frente, mas é preciso passar alguns anos para entender qual é um e outro no dialeto local. A terceira é que a noção de espaço é relativa. Necessariamente há uma margem de erro que varia de no mínimo três a no máximo sete quilômetros em relação ao que dizem as pessoas, os mapas e as raríssimas placas. A quarta é pensar que existem lugares incríveis em que não há sinalização alguma.

Placas
As placas são a expressão mais primitiva de comunicação do ser humano. Acho que até o homo habilis, que veio antes do homo erectus, que veio antes do homo sapiens rabiscava alguma coisa para indicar qualquer outra. É algo tão óbvio para nós, os seres humanos, que você nunca vai imaginar que elas não existem. Ainda mais num lugar espetacular, ainda pouco explorado, com paisagens lindas e turistas de aventura querendo chegar aos lugares das fotos que viram pela internet. Mas em Ponte Alta não há placas. E se com muita sorte você encontrar alguém no caminho, ele irá se comunicar a partir do “aqui e ali”.

Cerrado
A quinta lição você já deveria ter aprendido, pois diz sobre o clima do Cerrado. Espera-se de uma pessoa que tenha morado dois anos em Brasília que ela saiba que no verão sol e chuva vão e vem sem avisar. Que no asfalto de Brasília a alternância de ambos causam alguns estragos, mas o Jalapão, e você certamente já leu sobre isso, tem solo arenoso, é conhecido como deserto. E certamente você já devia imaginar que tipo de estragos o sol e a chuva que vão e vem podem causar em caminhos que aparecem no guia Quatro Rodas tracejados em branco com legendas bem desenhadas te alertando: “estradas de terra”. No Jalapão muito especialmente.

Portanto, e em suma, se quiser ser um turista de aventura no Jalapão vá com seu jipe, leve seu GPS e sua máquina fotográfica decente. Não ache que “dá pra ir” de carro pequeno pra lugar algum. Não espere placas e jamais saia de casa sem saber profundamente o que é o “aqui” e o “ali” do dialeto local. Agora, se você for uma turista de roubada como eu, seja auto-confiante, pegue seu mapa desenhado por alguém com noção relativa de espaço, aposte na sua compreensão de que o aqui é a direita, o ali é a esquerda e o vá em frente é a direção para onde aponta o dedo da única pessoa que você encontrará nas próximas sete horas, entre no seu JalaPalio e aumente o som. A viagem vai começar.

Uma resposta to “Jalapão: a roubada que virou abóbora”

  1. ligiaximenes Says:

    Como você é boa nessa arte – não a de se meter em roubadas, mas a de escrever! On the road ou já retornou à roça a que chamam Brasília?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: