Brasília

Acho uma injustiça Brasília comemorar 50 anos num contexto político tão sujo. O seu surgimento, em meio a controvérsias mil, tinha um quê de sonho, de possibilidade de um Brasil diferente. Tem um monte de histórias muito interessantes que o próprio Niemayer conta da convivência entre os candangos e engenheiros nos bares e, eles, comunistas de carteirinha, empolgados com um mundo em que todos eram de fato iguais, animados com os espaços coletivos, com o modernismo, com concretizar – literalmente – curvas e linhas que só cabem na imaginação. O Lúcio Costa também conta que quando começou a imaginar uma figura, jamais pensou em um avião, mas sim numa borboleta. Junto com tudo isso uma síntese real de sotaques brasileiros. Talvez seja aqui a cidade em que mais se degusta dezenas deles. Só no meu grupo de samba, com pouco mais de 20 pessoas, temos capixabas, piauienses, paulistas, paraenses, cearenses, gaúchos, baianos, mineiros, cariocas, goianos, manezinhos e, até, brasilenses! Eu mesma, antes de vir morar aqui, torcia o nariz para a cidade cinza, sem esquinas, que sugerem encontros. Mal sabia que todos aqui de tão ófãos de raízes, viramos todos uma imensa comunidade. Frequentadora de almoços, beirutes, sinucas, shows na Esplanada com a lua nascendo laranja. Não tinha olhado pro céu, que muda de cor 15 vezes ao dia. Menos ainda pro Cerrado. Aliás, tem uma história que trouxeram pra cá centenas de espécies de plantas do Brasil e do mundo, mas na década de 70 milhares delas morreram por não se adaptarem ao clima. Daí houve uma pesquisa da flora nativa e finalmente a vegetação sorriu. “Nem tudo que é torto é errado. Veja as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado”, disse Nicolas Behr, um matogrossense que veio em 74 e especializou-se em plantas tortas e Brasília. E assim como Nicolas, quem chega aqui de nariz torto, começa a gostar das curvas, dos galhos baixos, das flores lindas, do horizonte impressionante, das águas claras, dos olhos d’água, das quedas d’água. Das chapadas, das pedras, do concreto. Dos tucanos, socós, anus, maritacas, pica-paus, corujas e outras tantas aves que entoam a cidade. Brasília é um desafio diário de gostar do torto. Porque nem tudo são flores. E a política está aí para não me deixar mentir. E junto com ela um dos piores transportes públicos do Brasil, as justas greves de professores, a absurda especulação imobiliária, os meninos e as meninas ficando azuis no Setor Comercial Sul, as inaceitáveis e repetidas gestões inescrupulosas e corruptas que não mudaram o tom da cara do Brasil. Desejamos todos Outros 50 para Brasília. Que façam jus à sua beleza e vontade de ser diferente.

Como minha homenagem, uma música de um cachoeirense (aquele do Itapemirim, a capital secreta do mundo). Sérgio Sampaio passou pouco mais de seis meses em Brasília e escreveu assim:

Quase que ando sozinho por todos os bares
Freqüento lugares, namoro suas filhas, Brasília
E posso dizer que começo a voar
Sossegado em seu avião
E mesmo com o ar desse jeito tão seco
Consigo cantar no seu chão

Quase que me sinto em casa em meio a suas asas
E “dáblius” e “eles” e eixos e ilhas, Brasília
Cidade que um dia eu falei que era fria
Sem alma, nem era Brasil
Que não se tomava café numa esquina
Num papo com quem nunca viu

Sei que preciso aprender
Quero viver pra saber
E conhecer Brasília

Ver o que há, Paranoá
Lago de sol, noite, lua
O olho do amor desconhece a armadilha
Assim vim ver Brasília

Quase que me sinto bem distraído em suas quadras
Tão bem arrumadas com suas quadrilhas, Brasília
Concreto plantado no asfalto do alto
O céu do planalto onde estou
Aqui na cidade dos planos
Conheço um cigano que não se enganou

Sei que preciso aprender
Quero viver pra saber
E conhecer Brasília

3 Respostas to “Brasília”

  1. Mayrá Says:

    Eu que o diga o quanto essa cidade é difícil… mas a gente desafia e encontra boas surpresas. Já me arrependi de mil coisas, menos a de ter pago pra ver qual que era a dessa cidade!

  2. Tiago Says:

    Bom mesmo o texto, mas como não conheço Brasilia fiquei viajando um pouco e com mais vontade de conhecer, de: “ver o que há, Paranoá
    Lago de sol, noite, lua
    O olho do amor desconhece a armadilha
    Assim vim ver Brasília”
    Salve Sampaio…

  3. Gabi Says:

    Carol, adorei o blog, principalmente o texto sobre Brasília. Nossa cidade é assim mesmo, síntese de tudo, inclusive das contradições. Mas é só com a vivência diária (que só quem passa um tempo por aqui desfruta) é que podemos descobrir o que não sabemos sobre Brasília e até sobre nós mesmos, “órfãos” perdidos em uma cidade tão inusitada.

    Beijo da amiga mineira/candanga para a capixaba/mineira/paulista/candanga!😉

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