Psicopatices

Todo mundo é um pouco psicopata. Eu tenho uns ímpetos de violência absolutamente inesperados. E olha que sou dos tipos mais calmos e songo-mongos do planeta (é politicamente incorreta essa expressão? Se for, perdão. Vem da infância). Ocorre que num dia desses, estive numa reunião muito séria. Todo protocolo, três portarias, dois detectores de metais, cinco fotos, todo mundo engravatado. Mulheres inclusive. Sorte que minha sandália franciscana estragou e me obrigou a um sapato chato, que não chama atenção nem de coco de cachorro no chão. Bom, mas estávamos lá. Eu, o burocrata more, seu assistente burocrata e a assessora jurídica de ambos. Vocês sabem que os advogados devem sempre se vestir de acordo com a dignidade da profissão. E lá estava a moça num exemplar perfeito da mais alta dignidade. Terninho rosa, blush rosa, sombra rosa. Cabelos loiros, longos, bem lisos, com a franja presa com força para trás numa fivela dourada. Brincos e colar dourados. Pendurado em cada peça um pequeno crucifixo. Óculos muito chiques, retangulares e com aresta dourada. Lentes que fazem um grande esforço para fazer do óculos um enfeite, mas com pouca eficácia dada a projeção do globo ocular através do vidro. Fala muita rápida, daquelas que você mal ouve o número da lei quando passa para o decreto, a portaria e o regimento interno. Sei que a profissional falava com seu rosa e cruzes de maneira muito veloz e dignamente hipnótica. De repente meu perverso cérebro começa a imaginar a minha mão se levantando muito lentamente, parando no ar como se pegasse um impulso e, com atração magnética sublime, estatelando-se bruscamente, com força máxima mesmo, na fronte exposta da dama. O barulho que o tapa da minha imaginação fez no meu cérebro desencadeou em mim uma reação compulsiva de riso que começou no diafragma, percorreu vagarosamente todo a caixa toráxica e desembocou na minha boca como um vômito, fazendo minhas bochechas inflarem com o mais puro gás do riso. Vocês não imaginam o constrangimento da minha pessoa humana. Tive que improvisar uma crise de tosse bizarra e me levantar pedindo licença de um jeito completamente descabido para a digna burocracia do momento. Fiquei uns cinco minutos no banheiro passando mal de tanto rir. Vocês podem estar pensando que eu estava sob efeito de lisérgicos. Não é verdade. Estava no mais profundo estado de sobriedade que uma reunião como aquela requeria. E lá veio o meu cérebro nefasto, condicionando todas as minhas células a reagirem a seu ímpeto de agressão contra os seres coxinhas. Nunca antes na história da minha dignidade ato tão insólito foi criado pela imaginação. Por isso, não deixem o cérebro dominarem vocês. Antes de irem para uma reunião burocrática como a que eu fui, bebam.

Uma resposta to “Psicopatices”

  1. Rogério Tomaz Jr. Says:

    ahuahauhauahau
    eu já presenciei uma cena (da Carol mesmo) parecida com essa… não lembro onde e quando, mas (parafraseando Xicó) só sei que foi (quase) assim como ela escreveu aqui…
    a tática que uso pra não deixar isso acontecer (pq essas psicopatices acontecem com todo mundo o tempo todo) é usar o “reverso”… depois de pensar em algo que me deixa à beira de um ataque de riso, penso logo em seguida em algo muito frustrante ou brochante… não tem 100% de eficácia garantida, mas pode ajudar…

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