Archive for agosto \26\UTC 2010

Sabedoria

agosto 26, 2010

– Mãe, sonhei que a Sônia morreu num acidente de carro horrível.
– Minha filha, a Sônia está ótima. Sonhar com morte é sinal de vida, de alegria e bons presságios.

Alguns dias depois…
– Mãe, sonhei que  o Ataulfo estava transando com outra mulher na nossa cama.
– Minha filha, tenha certeza. Ele tem uma amante.

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Jantar leve

agosto 26, 2010

Um ovo, dois palmitos, três rodelas de tomate e uma batata. Tudo ótimo. Mas as batatas serão sempre as batatas.

Andanças

agosto 19, 2010

Uma das grandes mudanças da vinda para o Rio foi voltar a sentir minhas pernas. Em Brasília, morando longe do Plano Piloto, qualquer um que tenha condições de ter um carro se transforma num ser de cabeça, corpo e rodas. E para seres com dificuldade de transformar o exercício físico numa atividade do cotidiano como eu, o Rio é praticamente uma academia de ginástica. A substituição das minhas pernas por rodas em Brasília tinha me deixado num quadro de sedentarismo quadril-femurático mórbido. No Rio, há transporte público por cima, por baixo, por pouco ou por um preço que dá para pagar numa madrugada fria. No Rio, você curte andar porque olha pra cima e tem o Cristo, ou o Pão de Açucar, ou qualquer outro morro bonito com um pedaço de Baía de Guanabara no canto. No Rio, tem gente pra tudo que é lado, tem bom dia na rua, tem cheiro de cigarro ou de bisnaga queimando na esquina. Tem cachorro, tem gente bebendo na rua, dormindo na rua. Tem gente. A rua é sempre um encontro com tudo isso ou com você mesma, se esquivando dos cocôs e buracos da calçada e pensando na vida. Tem câimbra do descostume, tem calo por todo lado. Alegria e dor.

Linha amarela

agosto 14, 2010

Moro no Rio. E quero falar sobre isso de agora e aquilo de antes. De Brasília, do Rio. Mas a linha em questão não é aquela que liga a Barra da Tijuca à Ilha do Fundão sem passar pela zona zul carioca. É a aquela marcada nas calçadas de São Paulo para colocar fumantes em seu devido lugar. Acho a lei anti-fumo importante. Proibir o cigarro em locais fechados é bastante razoável. Não só pela saúde alheia e do fumante, mas também pela possibilidade de um flerte futuro sem o fedor nas entranhas das roupas. Mas a linha amarela fica a menos de um metro da mureta do bar. E ainda que as leis sejam capazes de domar seres humanos (e olhe lá), elas ainda não foram capazes de domar a fumaça. Especialmente a inteligente fumaça do cigarro, que existe para alimentar a indústria do tabaco e aplicar naqueles que se consideram imunes ao mau hábito, uma dose mínima de nicotina. Ela sabe, sem qualquer ingenuidade, que 97% dos frequentadores do bar vão reiterar seu ódio mortal aquele cheiro medonho e insuportável, e abanar o cardápio proferindo impropérios do mais baixo calão contra aquele prazer mundano circunscrito aos fracos. Sabe também que a transição do preconceito ao pensamento perverso “tomara que morra de câncer” é inevitável. Daí para a criação de assassinos em série é um pulo. Mas além de sua moral escapar qualquer legislação, ela sabe que ali, entre tantos fundamentalistas, haverá aquele que se deixará levar. E que retroalimentará a cadeia de fumantes até a quarta geração. E aquela impiedosa e segregadora linha amarela pode parar os seres humanos, mas não ela. Nunca ela.

Vovô Patão

agosto 11, 2010

Eu não lembro direito porque a gente chamava ele assim. Acho que um afilhado não conseguia falar madrinha, começou a chamar minha vó de Patinha e ele virou Patão. Para alguns era o seu Fred, mas pra gente ele era o vô. Dentista insatisfeito a vida toda, homem conformado até a isquemia. Rigoroso, mas engraçado. Adorava cantar. Foi por causa dele que eu me apaixonei pelo Manolo Otero. Quando criança ouvia por horas “Champagne”, “Vuelve” achando a coisa mais linda do universo. Adorava vê-lo cantar com meus tios e gostava ainda mais quando ele dava um jeito da minha vó parar de tagarelar. É o autor da memorável “só quero evitar fadiga”, uma das minhas frases prediletas até hoje. Uma trajetória que tentei descobrir, com detalhes surpreendentes que até hoje não sei se são verdadeiros ou fruto de uma divertida vontade da vida ter sido outra. Um homem muito culto, que lia Niestzche e Dickens. Um pai severo, um vô engraçado. A primeira pessoa com quem convivi, de quem gosto muito, a quem admiro demais, que morreu sem que eu esperasse. Sempre tive uma curiosidade imensa pelo meu avô. Fico feliz que tenha conseguido descobrir um pouco da vida dele, que é um tanto da minha história. Fico triste da gente não ter conversado mais, de não ter conseguido escrever sobre o homem que ele foi. Agora ele morreu. E a única coisa que sei é que seus mistérios seguirão me fascinando. Como me fascinava vê-lo cantar o que hoje tenho de vontade de cantar pra ele.

Champaña
Brindaremos de nuevo
Después
Que pasó tanto tiempo
Hoy quiero invitarte a mi casa
Y desfrutar un poco
De tu compañia.

Tener en tus manos
Las mias
Brindar por un viejo recuerdo
Pensar en los dulces momentos
Y más tarde
Si quieres, marchartes.

Después
Trataré de olvidar
Aquel tiempo pasado
Cuando existia amor
Entre tu y yo
Y asi
Podré sentir tu voz
Y lograré entender
Que aquel amor
Hoy terminó.

Champaña
Por un dulce recuerdo
Por hoy, por ayer y por siempre
Dos copas
Que juntando se besan
Y al terminar se dicen
Solo adiós.

Champaña
Brindo en tu compañia
Perdón
Se te hablé tonterias
No importa
Que te llore por dentro
Sabiendo que nunca volverás.

Si te vais
Yo te acompañaré
Es pronto todavia
Para quedarme solo
Todo el dia
Después y vamo conlugar.
Por fim voy a brindar
Camarero, Champaña.

Inconstâncias

agosto 10, 2010

Deve acontecer na vida de muita gente, mas a única coisa constante na minha é a inconstância. Esse blog, por exemplo. É a segunda tentativa. O primeiro foi bem divertido, durou alguns meses. Estou tentando acreditar que a inconstância desse está circunscrita a periodicidade, mas é provável que ele infarta daqui a pouco e vá fazer companhia ao outro, no fabuloso mundo secreto das almas deletadas da internet. Meu último post foi em 8 de maio. Desde então, muitas inconstâncias já me aconteceram. Mudei de cidade, usei maquiagem, comprei roupa chique, pareço séria. Quase parei de beber, quase parei de fumar, mas a constância de parar me fez voltar. E é claro que a constância de voltar vai me fazer parar de novo. Mas isso tudo para dizer que estou com vontade de escrever com mais frequência. Sobre o Rio e sobre Brasília. Sobre esquinas que as distanciam, sobre o funcionalismo público que as aproxima. Sobre a beleza de cada uma, sobre a gente de uma e outra. O tempo úmido, o tempo seco. A convivência e a solidão. Mas eu juro que não sei quanto tempo dura.

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