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Pai e filho (parte 2)

dezembro 21, 2010

Os primos estavam na sala de TV, falando qualquer coisa para fugir daquela briga das tias, a mesma de sempre. Eles se achavam mais evoluídos que a geração anterior. Davam-se bem, eram bem resolvidos, muito enturmados, leves e divertidos. As risadas foram interrompidas pela chegada esbaforida de um dos mais novos:

– Tenho um irmão.

Claro que tinha. O João. O mais novo de todos os primos. Um promissor piadista, apesar de mimado. Só descobriu agora? Mais risadas.

– Não, é outro irmão. Mais velho. Eu não sou mais o mais velho, sou o o meio.
– Hã? Como assim?
– É. E ele vem aqui hoje, no Natal.
– Hã? Como assim? Quem é? É sério? Senta. Explica. Outro irmão? Filho de quem? Como assim? Quantos anos? De onde vem?  Do seu pai? Nosso primo? Explica direito!
– Eu não sei explicar. Meu pai contou agora. Ele vem aí.
– Como assim? Quem é? É sério? Outro irmão? Filho de quem? Como assim? Explica direito! Vem aí como? Que história é essa?
– Não sei direito. Meu pai falou que vou conhecê-lo antes de vocês. Eu, meu irmão e minha mãe. Foi bem antes da minha mãe. Não estou entendendo muito. Nos vemos logo mais. Tchau!

O novo primo apareceu no Natal. Simpático até o talo, abraçou um a um com uma alegria tão comovente que não houve tempo para estranhezas. O irmão, agora do meio, contava a história. O novo primo contava a história. O pai contava a história. A mulher atual contava a história. A história se espalhou na festa e de repente todo mundo estava sabendo. O novo primo foi acolhido. Uma tia falou que guardava muita semelhança com outro primo, sem mencionar que esse outro primo não tinha nem a sobrancelha parecida com qualquer membro da família. Mas o realmente importante para todo mundo foi a família crescer. Era tanta a simpatia do novo membro que o sentimento geral era de alegria e na madrugada tudo se assentou como se ele já fizesse parte há 28 anos. Beberam juntos, brindaram juntos, dançaram juntos. Foi a melhor notícia da noite. Nesse dia todos dormiram mais tarde. E mais felizes.

Meses depois, desobriram que o filho não era do pai. Foi um engano. Uma tristeza. Mas mesmo assim ele permaneceu frequentando o Natal. Como filho, irmão, sobrinho  e primo daquela gente toda. Sem fazer a mais vaga idéia de quem era o verdadeiro pai.

Pai e filho (parte 1)

dezembro 7, 2010

Fazia tempo ele insistia com o pai. Já há 15 anos se descobriu filho. Queria mais e mais minutos daquela lembrança de alegria que não sabia mensurar, de ser filho de um pai, com último sobrenome de verdade. Queria agora ser neto de uma vó, sobrinho de seis tios e primo de uma dúzia de outros primos. A atual mulher do pai ia entender. Ninguém tinha culpa, o pai não imaginava, era ele, o filho, quem buscava a configuração exata de sua história, com as ramificações genealógicas todas. Já estava com 28 anos, queria conhecer seus irmãos, sua madrasta, parentes de sangue e de acaso. Queria se entender como parte daquilo que há 15 anos ele sabia existir. A família jamais estaria completa sem ele.

(…)

Pediu paciência ao filho. Imagina que pra ele não foi fácil, depois de tanto tempo, descobrir que tinha um garoto de 13 anos, seu filho, de uma relação que ele mal lembrava, nada contra a mãe, que resolveu se virar sozinha sem falar nada, eram tão jovens. Mas ele não teve culpa, nunca soube, e o filho tem de reconhecer que há 15 anos dava um jeito de levá-lo para jogar bola e dar comida aos macacos. Ensinou-a beber, a conquistar as mulheres, a pescar, a levar a vida a sério e não terminar como ele próprio, ainda que se achasse um bom homem. Era preciso calma, porque ele mesmo não fazia idéia de como explicar à mulher, aos dois filhos, aos pais, aos seis irmãos e a uma dúzia de sobrinhos que tinha um filho há 15 anos, ou melhor, há 28 anos, que agora, de repente, iria fazer parte da família.

Escolheram o Natal daquele ano. Era melhor contar para todo mundo de uma só vez.

Ele

dezembro 1, 2010

Ele morreu. Era um dos caras mais fantásticos do mundo. Achava bom até dia ruim, acreditando que a vida valia a pena apesar de tudo. O enterro dele foi um acontecimento na cidade. Pequena, minúscula, muito minúscula (mas cheia de lendas que valiam o diploma de município que ele batalhou para conseguir quando antes). Tinha dez filhos. E nenhum deles sabia de onde ele vinha. Apareceu um dia, casou com ela e procriou. Mudou de sobrenome para evitar pistas. Existiu. Intenso, louco e  feliz como sempre, sem querer contar e saber do resto. Morreu. E olhou de cima o seu velório.

Eram quatro da tarde. A família chegava naquela cidade que guardava o nome dele na rodoviária. Os sinos tocavam. E vinha gente de todo canto. Chegavam da capital, da cidade de praia e também de onde ninguém sabia bem o porquê. A mulher oficial quis entender de onde vinham outras tantas. As cinco filhas, todas beatas, eram mais resmungo que consolo. A mãe mandou parar os sinos e também a bandinha uniformizada que fazia uma homenagem ao duas vezes prefeito daquela cidade minúscula, batizada há cinco anos também com o nome dele. A mulher oficial resolveu parar com aquela chegança de mulheres sabe lá de onde. “Expulsem todas, parem a música, vamos enterrar esse safado”. Eram cinco da tade.

O cortejo ia começar. Coroas vindas das províncias vizinhas, dos padres, dos advogados, dos médicos. O caixão foi posto numa carroça. Carregado por um burro. O sol descia quase que rindo. Amarelo, laranja, vermelho. Depois de alguns poucos quilômetros, talvez dois, o cortejo se aproximava do fim. E com ele a luz. Sobrou ainda um pouco para o que viria.

Antes do encontro do corpo com os vermes brancos (como ele dizia sobre morrer), um dos filhos sacou uma latinha de cerveja e suspendeu a descida do caixão. “Quero falar”. Abriu a latinha fazendo surgir o som encantado de todos os bêbados, “tsss”:

– Um brinde ao melhor dos homens, ao melhor dos bêbados, ao melhor da alegria.

As irmãs não acreditaram. Gritaram que aquilo era um absurdo, uma blasfêmia e o pior dos pecados. Os outro quatro irmãos insistiram no brinde. Os moços que seguravam as cordas aguardavam já exaustos o fim do debate para enterrar de vez aquele tumultuante difunto.

E entre choros, revoltas e blasfêmias, os cinco filhos entornaram toda a cerveja clandestina no buraco escavado e preparado para o velho. Com a latinha vazia brindaram à vida. Daquele pai que parecia o melhor homem do mundo, amante daquelas mulheres todas, com nome em lápide, rodoviária e cidade. Que ninguém nunca descobriu de onde veio.