Ele

Ele morreu. Era um dos caras mais fantásticos do mundo. Achava bom até dia ruim, acreditando que a vida valia a pena apesar de tudo. O enterro dele foi um acontecimento na cidade. Pequena, minúscula, muito minúscula (mas cheia de lendas que valiam o diploma de município que ele batalhou para conseguir quando antes). Tinha dez filhos. E nenhum deles sabia de onde ele vinha. Apareceu um dia, casou com ela e procriou. Mudou de sobrenome para evitar pistas. Existiu. Intenso, louco e  feliz como sempre, sem querer contar e saber do resto. Morreu. E olhou de cima o seu velório.

Eram quatro da tarde. A família chegava naquela cidade que guardava o nome dele na rodoviária. Os sinos tocavam. E vinha gente de todo canto. Chegavam da capital, da cidade de praia e também de onde ninguém sabia bem o porquê. A mulher oficial quis entender de onde vinham outras tantas. As cinco filhas, todas beatas, eram mais resmungo que consolo. A mãe mandou parar os sinos e também a bandinha uniformizada que fazia uma homenagem ao duas vezes prefeito daquela cidade minúscula, batizada há cinco anos também com o nome dele. A mulher oficial resolveu parar com aquela chegança de mulheres sabe lá de onde. “Expulsem todas, parem a música, vamos enterrar esse safado”. Eram cinco da tade.

O cortejo ia começar. Coroas vindas das províncias vizinhas, dos padres, dos advogados, dos médicos. O caixão foi posto numa carroça. Carregado por um burro. O sol descia quase que rindo. Amarelo, laranja, vermelho. Depois de alguns poucos quilômetros, talvez dois, o cortejo se aproximava do fim. E com ele a luz. Sobrou ainda um pouco para o que viria.

Antes do encontro do corpo com os vermes brancos (como ele dizia sobre morrer), um dos filhos sacou uma latinha de cerveja e suspendeu a descida do caixão. “Quero falar”. Abriu a latinha fazendo surgir o som encantado de todos os bêbados, “tsss”:

– Um brinde ao melhor dos homens, ao melhor dos bêbados, ao melhor da alegria.

As irmãs não acreditaram. Gritaram que aquilo era um absurdo, uma blasfêmia e o pior dos pecados. Os outro quatro irmãos insistiram no brinde. Os moços que seguravam as cordas aguardavam já exaustos o fim do debate para enterrar de vez aquele tumultuante difunto.

E entre choros, revoltas e blasfêmias, os cinco filhos entornaram toda a cerveja clandestina no buraco escavado e preparado para o velho. Com a latinha vazia brindaram à vida. Daquele pai que parecia o melhor homem do mundo, amante daquelas mulheres todas, com nome em lápide, rodoviária e cidade. Que ninguém nunca descobriu de onde veio.

Uma resposta to “Ele”

  1. Rogério Tomaz Jr. Says:

    paradoxalmente melancólico e alegre…
    mas é isso mesmo, a contradição é o motor da história, como disse um alemãozinho mala…

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