Pai e filho (parte 1)

Fazia tempo ele insistia com o pai. Já há 15 anos se descobriu filho. Queria mais e mais minutos daquela lembrança de alegria que não sabia mensurar, de ser filho de um pai, com último sobrenome de verdade. Queria agora ser neto de uma vó, sobrinho de seis tios e primo de uma dúzia de outros primos. A atual mulher do pai ia entender. Ninguém tinha culpa, o pai não imaginava, era ele, o filho, quem buscava a configuração exata de sua história, com as ramificações genealógicas todas. Já estava com 28 anos, queria conhecer seus irmãos, sua madrasta, parentes de sangue e de acaso. Queria se entender como parte daquilo que há 15 anos ele sabia existir. A família jamais estaria completa sem ele.

(…)

Pediu paciência ao filho. Imagina que pra ele não foi fácil, depois de tanto tempo, descobrir que tinha um garoto de 13 anos, seu filho, de uma relação que ele mal lembrava, nada contra a mãe, que resolveu se virar sozinha sem falar nada, eram tão jovens. Mas ele não teve culpa, nunca soube, e o filho tem de reconhecer que há 15 anos dava um jeito de levá-lo para jogar bola e dar comida aos macacos. Ensinou-a beber, a conquistar as mulheres, a pescar, a levar a vida a sério e não terminar como ele próprio, ainda que se achasse um bom homem. Era preciso calma, porque ele mesmo não fazia idéia de como explicar à mulher, aos dois filhos, aos pais, aos seis irmãos e a uma dúzia de sobrinhos que tinha um filho há 15 anos, ou melhor, há 28 anos, que agora, de repente, iria fazer parte da família.

Escolheram o Natal daquele ano. Era melhor contar para todo mundo de uma só vez.

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