Pai e filho (parte 2)

Os primos estavam na sala de TV, falando qualquer coisa para fugir daquela briga das tias, a mesma de sempre. Eles se achavam mais evoluídos que a geração anterior. Davam-se bem, eram bem resolvidos, muito enturmados, leves e divertidos. As risadas foram interrompidas pela chegada esbaforida de um dos mais novos:

– Tenho um irmão.

Claro que tinha. O João. O mais novo de todos os primos. Um promissor piadista, apesar de mimado. Só descobriu agora? Mais risadas.

– Não, é outro irmão. Mais velho. Eu não sou mais o mais velho, sou o o meio.
– Hã? Como assim?
– É. E ele vem aqui hoje, no Natal.
– Hã? Como assim? Quem é? É sério? Senta. Explica. Outro irmão? Filho de quem? Como assim? Quantos anos? De onde vem?  Do seu pai? Nosso primo? Explica direito!
– Eu não sei explicar. Meu pai contou agora. Ele vem aí.
– Como assim? Quem é? É sério? Outro irmão? Filho de quem? Como assim? Explica direito! Vem aí como? Que história é essa?
– Não sei direito. Meu pai falou que vou conhecê-lo antes de vocês. Eu, meu irmão e minha mãe. Foi bem antes da minha mãe. Não estou entendendo muito. Nos vemos logo mais. Tchau!

O novo primo apareceu no Natal. Simpático até o talo, abraçou um a um com uma alegria tão comovente que não houve tempo para estranhezas. O irmão, agora do meio, contava a história. O novo primo contava a história. O pai contava a história. A mulher atual contava a história. A história se espalhou na festa e de repente todo mundo estava sabendo. O novo primo foi acolhido. Uma tia falou que guardava muita semelhança com outro primo, sem mencionar que esse outro primo não tinha nem a sobrancelha parecida com qualquer membro da família. Mas o realmente importante para todo mundo foi a família crescer. Era tanta a simpatia do novo membro que o sentimento geral era de alegria e na madrugada tudo se assentou como se ele já fizesse parte há 28 anos. Beberam juntos, brindaram juntos, dançaram juntos. Foi a melhor notícia da noite. Nesse dia todos dormiram mais tarde. E mais felizes.

Meses depois, desobriram que o filho não era do pai. Foi um engano. Uma tristeza. Mas mesmo assim ele permaneceu frequentando o Natal. Como filho, irmão, sobrinho  e primo daquela gente toda. Sem fazer a mais vaga idéia de quem era o verdadeiro pai.

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