Mundo cão

O nome dela era Pedrita*. Sabe-se lá como veio parar no quintal do Gomes e Joca, meus cachorros. Quando eu percebi eram três pra lá, três pra cá. O cheira cheira sem fim me fez acreditar que era só uma brincadeira, afinal meus dois filhotes eram totalmente ingênuos e virgens, faziam pouca idéia de como seria o processo. Em três anos jamais tive notícia de qualquer investida nas cadelinhas vizinhas e tampouco a eles foi proporcionada uma visita íntima que fosse.

Alguns podem achar crueldade, mas as opções nunca foram fartas. Onde eu moro a maior parte dos bichos é de raça puríssima e mantém distância regulamentar dos dois pés de chinelo, que eles não usam, mas gostam bastante de mastigar. Aliás, tenho tido grande dificuldade em levar meus cachorros para andar de avião porque não consta no sistema a categoria “vira-latas”. E assim, o atendente não consegue passar para a etapa seguinte, porque “raça” é um campo obrigatório. Tentamos mestiço, não sem preencher o campo de observações, e seguimos sob análise da cia aérea. Eu já vi muita coisa, mas discriminação canina é novidade.

Pois bem, voltando à Pedrita, a nem tão graciosa beagle puríssima no sio que ocupou a minha propriedade em busca de amor livre. Já estávamos eu e Paola*, sua mãe humana de nove anos, tentando dissuadir o ato, quando aconteceu. E foi o Gomes quem se deu bem, pelo menos na hora que vi. Depois Paola me contou que também tinha rolado no dia anterior, ela não sabe com quem.

Eu até sabia que depois da coisa toda, macho e fêmea ficavam grudados. E olha, que os serem humanos dêem graças aos céus, ou à evolução, ou a qualquer coisa em que se acredite por não terem de passar por isso. Ambos estavam claramente constrangidos, querendo sair daquela situação, ainda mais com Joca, seu irmão gêmeo, eu, Paola e seu pai, recém chegado ao evento, torcendo pro desgrude rolar. E não acabava nunca! Ficaram uma meia hora lá, tentando se livrar do que certamente foi a ejaculação mais precoce que já presenciei.

Consegui prender o Joca na grade do portão enquanto aguardava o desvencilho. Paola argumentava que estava claro pra todo mundo que eles não queriam mais estar grudados, “então por que não se separam?”, perguntou. Na metáfora mais delicada que consegui encontrar, expliquei que às vezes machucamos o dedo e ele incha e, mesmo que a gente queira muito, não depende da nossa vontade ele desinchar. Não sei se ela entendeu, mas parou de reclamar.

Finalmente consegui pegar o Gomes pela coleira, ao mesmo tempo em que afundei meu pé no formigueiro gigante. Desconheço o nome das formigas, mas uma ficou grudada no meu dedinho. E doeu, mas como o urgente era tirar Pedrita do quintal, prendi o Gomes ao lado do Joca. No portão. Que deve pesar uns 100 quilos. Excelente idéia. Dois passos meus depois, eles uniram forças e arrancaram o portão. Que caiu em cima do meu carro. 100 quilos.

Com os pés em chamas (o efeito das formigas foi um pouco retardado), eu sentei e chorei. Pela ardência, pelo carro e pela Pedrita, coitada, que se envolveu súbita e sexualmente com os gêmeos. Sem preliminares e com ejaculação precoce. Sem jamais saber quem será o pai dos seus prováveis 11 filhotes inexistentes no campo “raça”do sistema.

*Nomes fictícios.

Uma resposta to “Mundo cão”

  1. Tati Says:

    amiga, sinto pelo portão, pelo carro, pelos seus pés e pelos filhotes da beagle que serão considerados bastardos pela família e provavelmente doados o quanto antes a quem os desejar. Mas agradeço o fato pela sua capacidade de transformar o trágico em cômico. A Pedrita é subversiva, queria fugir dos ditames familiares que provavelmente a colocariam lado a lado com um belo exemplar da sua raça e, se não o quizesse, contratariam um profissional que ajuda no cruzamento de cães que não tão a fim de sexo um com o outro. Terrível, mas existe essa profissão, pois o que importa é a continuidade da raça pura. Portanto, não sinto por ela, que escolheu um ménage a trois com Gomes e Joca.
    No mais, o código para cães vira-latas é SRD (sem raça definida).

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