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A beleza nos olhos de quem vê (ou bebe)

outubro 27, 2011

– Oi.

– Oi.

– Tudo bem?

– Sim.

– Tá sozinha?

– Não, com amigos.

– Você é linda.

– Não sou.

– Claro que é.

– Não sou. Você que está bêbado.

– Eu estou bêbado, mas você é linda.

– Não sou. Dá uma olhada em volta. Olha pra mim.

– Tá, você não é linda, mas não é feia também.

– Você é.

– O que?

– Feio.

– Sério?

– Sério. E eu não estou bêbada.

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Carpe diem

outubro 9, 2011

“Não procure saber, ó Leuconae,
– por ser inútil –
Que fim a nós os deuses destinaram;
Não consultes sequer
os números babilônicos:
Melhor é aceitar! E venha o que vier!
Que Júpiter te dê ainda muitos invernos,
que seja o último este que ora desfaz, nos
rochedos hostis, as ondas do mar Tirreno.
Vive com sensatez, bebe o teu vinho e,
como a vida é breve, encurta a longa esperaça.
Enquanto falamos, foge o tempo hostil.
Aproveita, pois, o dia de hoje,
que o amanhã não merece confiança”
Horácio, Odes (1,11)

Esse poema inspirou o dono de uma rede de restaurantes em Brasília a batizar seu negócio como Carpe Diem. Eu não sei que parte do texto a equipe do restaurante não entendeu, mas o último verbo que me veio à mente para traduzir a minha sensação ao sair de lá foi “aproveitar”. Já tinha tido uma experiência ruim antes quando oito garçons preferiam ver novela a olhar para as mesas, atender os clientes e anotar pedidos. Nesse dia eu fui embora antes de comer porque 20 minutos depois de sentar não consegui acesso ao cardápio. Não imaginava a minha sorte.

Hoje, ao contrário do outro dia, o primeiro atendimento foi rápido (Faustão em baixa entre os funcionários). Eu e meu amigo pedimos de entrada um bolinho de aipim e um pastel de carne. Eu fiquei com o risoto de pato como prato principal e ele pediu talharim com frutos do mar. Eu também não sei que parte da definição “entrada: primeiro prato servido em uma refeição” (Houaiss) a equipe não entendeu, mas 40 minutos depois tivemos que alertar o garçon que queríamos os salgados antes do prato principal.

O bolinho de aipim estava com o recheio congelado. Acontece vai. Troca lá e traz uma coca zero, por favor. Volta o bolinho cozido e nada de coca zero. Pedimos de novo. Veio o primeiro prato e não veio a coca zero. Veio o primeiro prato e não veio o segundo. Veio o primeiro prato, mas não veio inteiro. Sem coca, sem talharim e sem segundo prato, eu fiquei me perguntando se algum dia eu já tinha ido a um restaurante em que duas pessoas fazem um pedido, mas só uma come. Não lembrei. Mas o melhor ainda estava por vir.

Antes da coca zero chegar, pedi um guaraná normal. Não sei que parte “guaraná normal” o garçon não entendeu, mas ele trouxe um diet. Acontece vai. Troca lá e traz a coca zero pelo amor de deus. Junto com a coca zero (e uma normal que ele trouxe junto para não errar de novo), chegou o talharim do primeiro prato (!) e o risoto de pato.

Eu olhei pro prato e pensei que se eu quisesse beber vinho tinha pedido um. O arroz estava boiando numa piscina roxa (o que denunciava a excelente marca utilizada no cozimento) e a pele do pato afogada no arroz. Não consegui passar da terceira garfada e só cheguei até ela porque a fome era terrível. Mas não pior que a sopa de vinho ruim com pele de pato. Não comi e não paguei. Aproveitei melhor meu momento no clássico pão com salame da padaria.

“Melhor é aceitar! E venha o que vier!” uma banana, Horácio! Carpe diem nunca mais.

Despedida

outubro 6, 2011

Ainda me resta um tempo de convivência com o céu, com os galhos tortos e os pássaros daqui. Reencontrei-me algumas vezes nas águas intensas e nos horizontes paralisantes dessa terra. O cerrado foi um grato suspiro de vida, de recomeço, de tumulto, desacerto e busca.

Encostei umas tantas gentes transbordadas de desejo e com uma coragem absurda de mudar a história. Delas e do Brasil. A do mundo não coube na humildade da maioria. Mas o valor da diversidade, da preservação, do respeito e da urgência de experimentar plenamente o mundo nunca se fez tão presente no sorriso e na lágrima de cada amigo e amiga que tive a imensa alegria de rever ou conhecer. A música, os bares, o samba, as reuniões, as marchas, as cirandas, os terreiros. Tudo desenhando uma incansável luta pelo sentido leve, profundo, contraditório, político, poético e intenso da existência.

Brasília foi um choro, um grito. Por um futuro que segue amontoado de incertezas e possibilidades, certamente fermentadas pela natureza escancarada, pelas pessoas desajustadas, pelo mundo todo errado. Por sorrisos, abraços, desejos, angústias, momentos. Flores secas, margaridas em marcha, ipês amarelos, ibiscos e aquela vermelhinha que nasce entre os espinhos. A falta de ar repleta de cores. A chuva que vem recompensando tudo. O experimento mais concreto e metafórico da contradição humana que uma cidade já me deu.

A ausência de esquinas repleta de encontros. A cidade totalmente calculada, mas completamente desnorteada pela complexidade de sonhos e frustrações que se juntam nela. E, apesar dos sabiás de peito laranja com ninho na minha janela (que cantavam lindamente!), Brasília foi também um tombo, um soco.

Com vida dura espalhada na rodoviária, na quadra 6 do Setor Comercial Sul, com excesso ou falta de trabalho, com doenças, com perdas. Com filas, soberba, contraste, falta de sentir os pés. Caminhar é um luxo, um risco, uma canseira danada. Pedestre, com privilégio na faixa e aparência de prioritário, só se fode. Voltas ao mundo para achar as listrinhas brancas na pista. Mas também não há rodas que encontrem um lugar pra se aquietar. Não há vagas.

Brasília foi um risco, uma aposta. Que de tão torta seria simplista dizer que deu certo e, de tão boa, totalmente leviano dizer que deu errado. Foi um caminho, um rito. O argumento e a racionalidade, a disputa. E também a passagem para uma vida adulta que suplica por inocência e sensibilidade em relação aos sentimentos mais primários. Viver a grama, o carinho dos cachorros, os santos e orixás, as mil e uma flores, o limão de cor laranja, a graviola, o sol e a lua. Gritando. O experimento da falta de água no ar. Que dói o nariz, a garganta, faz a pele ficar “russa”, mas seca a roupa e o cabelo rapidinho.Entre abril e setembro.

Brasília foi um tanto.

Lingerie

outubro 4, 2011

Essa semana está rolando um grande bafo na mídia porque a Hope, uma marca de lingerie, veiculou uma propaganda que trata a mulher como objeto. Eu gosto de lingerie, mas agradeço por não ser público alvo de uma loja que qualifica suas clientes dessa forma. O diálogo que me faria dar risada e ter curiosidade de conhecer os produtos seria esse aqui:
– Querido?

– Oi?

– Bati o carro.

– Putz, que merda. Você tá bem?

– Eu tô aqui, né?

– Mas e o carro?

– O que tem o carro?

– Como assim o que tem o carro? Você tá aqui, né? Tá bem. Disse que bateu o carro. E o carro?

– O carro amassou um pouco, mas nada comparado àquela merda que você fez depois da festa do Artur.

– Aquilo foi coisa de homem, Helena.

– Genial a coisa de homem. Sair na porrada na festa, ficar puto, arremessar o copo no vidro do próprio carro e arrematar com um soco no capô. Fodeu o queixo, fodeu a mão e fodeu o carro.

– Ai, Helena. Foi apenas uma leve demonstração de virilidade masculina potencializada pelo álcool.

– E o carro?

– O que tem o carro?

– Quebrou o vidro, amassou o capô e custou uma puta grana que definitivamente não estava sobrando no nosso orçamento. E ainda tive que aguentar você vindo me acordar de cueca, todo ensaguentado, querendo me seduzir para não levar um esporro.

– Você não gostou da dança do acasalamento que eu fiz especialmente pra te contar a novidade?

– Adorei Luis Fernando. A cena do inferno. Você quase sem queixo, com sangue jorrando da cara, puta bafo de álcool, de cueca do avesso, se esfregando em mim e falando: amor, tenho que te contar uma coisa…bati no carro. Foi um tesão incrível.

– Você devia era colocar uma lingerie para me contar que bateu o carro.

– Claro. Aliás, estou com uma novinha em folha agora mesmo. Pena que acabei de marcar o taxi pra balada “só meninas” de hoje e só vou poder te mostrar quando voltar. Prometo evitar o queixo deslocado e o sangue jorrando, mas a história do carro, o bafo de cachaça e a calcinha do avesso eu garanto!