Despedida

Ainda me resta um tempo de convivência com o céu, com os galhos tortos e os pássaros daqui. Reencontrei-me algumas vezes nas águas intensas e nos horizontes paralisantes dessa terra. O cerrado foi um grato suspiro de vida, de recomeço, de tumulto, desacerto e busca.

Encostei umas tantas gentes transbordadas de desejo e com uma coragem absurda de mudar a história. Delas e do Brasil. A do mundo não coube na humildade da maioria. Mas o valor da diversidade, da preservação, do respeito e da urgência de experimentar plenamente o mundo nunca se fez tão presente no sorriso e na lágrima de cada amigo e amiga que tive a imensa alegria de rever ou conhecer. A música, os bares, o samba, as reuniões, as marchas, as cirandas, os terreiros. Tudo desenhando uma incansável luta pelo sentido leve, profundo, contraditório, político, poético e intenso da existência.

Brasília foi um choro, um grito. Por um futuro que segue amontoado de incertezas e possibilidades, certamente fermentadas pela natureza escancarada, pelas pessoas desajustadas, pelo mundo todo errado. Por sorrisos, abraços, desejos, angústias, momentos. Flores secas, margaridas em marcha, ipês amarelos, ibiscos e aquela vermelhinha que nasce entre os espinhos. A falta de ar repleta de cores. A chuva que vem recompensando tudo. O experimento mais concreto e metafórico da contradição humana que uma cidade já me deu.

A ausência de esquinas repleta de encontros. A cidade totalmente calculada, mas completamente desnorteada pela complexidade de sonhos e frustrações que se juntam nela. E, apesar dos sabiás de peito laranja com ninho na minha janela (que cantavam lindamente!), Brasília foi também um tombo, um soco.

Com vida dura espalhada na rodoviária, na quadra 6 do Setor Comercial Sul, com excesso ou falta de trabalho, com doenças, com perdas. Com filas, soberba, contraste, falta de sentir os pés. Caminhar é um luxo, um risco, uma canseira danada. Pedestre, com privilégio na faixa e aparência de prioritário, só se fode. Voltas ao mundo para achar as listrinhas brancas na pista. Mas também não há rodas que encontrem um lugar pra se aquietar. Não há vagas.

Brasília foi um risco, uma aposta. Que de tão torta seria simplista dizer que deu certo e, de tão boa, totalmente leviano dizer que deu errado. Foi um caminho, um rito. O argumento e a racionalidade, a disputa. E também a passagem para uma vida adulta que suplica por inocência e sensibilidade em relação aos sentimentos mais primários. Viver a grama, o carinho dos cachorros, os santos e orixás, as mil e uma flores, o limão de cor laranja, a graviola, o sol e a lua. Gritando. O experimento da falta de água no ar. Que dói o nariz, a garganta, faz a pele ficar “russa”, mas seca a roupa e o cabelo rapidinho.Entre abril e setembro.

Brasília foi um tanto.

4 Respostas to “Despedida”

  1. Mariana Says:

    Vixe que coisa mais linda! Bate lá dentro de quem ainda estar no meio dessa turbulência, dessa aventura. E, apesar de termos nos visto pouco, muito pouco perto do que eu queria, passar esse tempo em Brasília com vc foi ótimo. Tenho certeza que para onde vc for vc vai carregar esse otimismo e essa força que te marcam pesadamente. Esse nomandismo é você! Nos veremos mais algumas vezes por aqui e eu te verei tb no mundo.

  2. Adriana Krieger Says:

    Independente do tempo que ficou por aqui, você soube ler essa cidade, sair viva do embrenhado de paradoxos, soube sentir o amor e a dureza dessa terrinha sem morros, com seu céu sempre tão lindo. Lindo o texto, deixou essa brasiliense muito emocionada…
    Boa sorte em mais uma nova fase de vida!

  3. Leonor Costa Says:

    Sensacional. Excelente texto, amiga. Você tem que publicar um livro de crônicas, urgente!

  4. Rachel Says:

    Somos mesmo poeira cósmica, pequeninos seres tentando imprimir sentido a essa complexidade que é a nossa passagem por aqui. Mas somos grãos acompanhados por outros que não se anestesiam e que partilham a fé na vida, na luta, no amor, no sonho. E esses encontros, a força das contradições, da beleza que é viver está na gente – mesmo que às vezes a gente se esqueça. O texto tá lindo e quando vc achar que tudo vai mto bem, volta pra ele, pra te lembrar que o mundo lá fora é grande e que nem tudo precisa ser coerente e calmo pra ser belo!

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