Vivendo a cariocagem

Eu já morei no Rio uma vez e agora moro de novo. Já morei em cinco cidades depois de adulta e com essa pequena vivência tenho a convicção de que o Rio é a cidade que mais oferece aos seres humanos mais bônus que revezes. E ouso dizer que: é sim a melhor cidade do mundo pra se morar. Todas as cidades tem problemas, inclusive o Rio. A diferença é que os problemas do Rio que me encostam são quase todos motivo de crônicas. E gostaria de, humildemente, elencar algumas características que fazem dos cariocas, falando genericamente e consciente do erro (afinal tem gente doida e errada em todo canto), seres contra a civilidade e engraçados ao mesmo tempo.

  1. Sinal de trânsito – versão pedestre

Uma das características do carioca, comprovada empiricamente em quatro situações semelhantes, é sua postura frente ao sinal de pedestres. Pode fazer a experiência. Se o sinal de pedestre estiver vermelho e algumas pessoas avançarem sobre a faixa de pedestres, atravessando a rua no milésimo de segundo entre o atropelamento e a vida, ou simplesmente se prostrando no lugar –  em tese – reservado ao carro, tenha certeza: essas pessoas são cariocas. As três que restarem na calçada, aguardando bovinamente o sinal verde, são de outra cidade. Faça o teste. Eu fiz quatro vezes. Infalível.

  1. Sinal de trânsito – versão motorista

Outra característica do carioca é jamais parar no sinal amarelo. Essa é um pouco mais profunda. Eu nunca estudei a fundo a lógica do sinal amarelo, mas minha formação como motorista sempre me ensinou que é um momento que, se sua distância for um pouco mais de 10 metros, o melhor é reduzir e parar. O carioca acelera até os cinco segundos após o sinal vermelho. E ele tem a certeza que essa é a direção defensiva, porque se ele pára no sinal amarelo, o carro de trás, que pensa com a lógica dos cinco segundos seguintes, vai certamente bater na sua traseira e não vai ser legal. Logo, ele avança para não ser batido. E o pedestre também, porque tem pressa não sei porque. Vai os cinco segundos mudam a vida dele, né? Mas todos avançam e o trânsito flui, com os quase batidos e atropelados. É esquisito porque o cara que está parado no sinal fechado também começa a andar cinco segundos antes do sinal abrir. E ninguém bate. Só pode ser o Cristo Redentor operando em alta.

3. Andando na calçada

Outro aspecto muito interessante. As calçadas do Rio por onde ando geralmente são largas, mas com vários canteiros de árvores antigas a cada 30 metros. Entre os canteiros e os prédios, geralmente só passam duas ou uma pessoa. Em todas as cidades que morei, pessoas falando no celular, conversando com o chaveiro, ou com os vizinhos, com o porteiro, com o flanelinha, empurrando o carrinho de bebê ou o de supermercado, ou simplesmente andando muito devagar, compreendem que outras pessoas mais apressadas estão atrás e dão aquela olhadinha de lado para dar passagem. No Rio não. O tempo e a calçada pertencem ao espírito carioca. E você que se foda insistindo numa ultrapassagem descabida pela pressa. E por isso deve se foder disputando com os carros que tem aquela relação super saudável com o sinal e o espaço regular entre a rua e a calçada. Não há espaço para pressa. Devo dizer que essa foi inspirada pelo amigo do bar, que não lembro o nome.

 

4. Regando as plantas

Essa não é uma regra geral, mas já aconteceu seis vezes. Eu já lavei carro com mangueira e reguei muita planta sem dó, achando que a água era infinita. De uns tempos pra cá, adquiri consciência ecológica, reciclo lixo, bebo no mesmo copo de plástico (quando só tem ele) até ter colônia de bactérias se proliferar  e tudo mais. Enfim, água é um troço importante mesmo, vamos aí economizar água. Regar só com água da chuva e tal. A regra é ser contra regar plantas e lavar calçada. Entrei nessa vibe e virei militante. Até aí foda-se. A questão é que um dia eu estava andando na calçada larga, que vira estreita a cada 30 metros, que ninguém passa sem impor licença, e tinha uma tia de dentro do prédio regando as plantas e a calçada. Parei na esperança de que, óbvio, ela ia parar de regar a calçada para não me molhar. Mas não aconteceu até que eu pedisse por gentileza que ela abaixasse a mangueira para que eu passasse. E ela me xingou nos cinco minutos seguintes, com o chaveiro, o vizinho, o porteiro, o flanelinha, com a moça que estava empurrando o carrinho de bebê ou o de supermercado, dizendo que eu era uma folgada. Onde já se viu? Pedir pra eu baixar a mangueira..

5. Conversando sozinho

Em qualquer situação de espera, o carioca fala sozinho. Na maioria das vezes parece puxar assunto com alguém, mas às vezes acho que a pira é conversar com ele mesmo, botar pra fora e extravasar. Pois bem, essa situação já me ocorreu algumas vezes, em consultório médico, ponto de ônibus, metrô e na praia. Mas a mais simbólica foi no escritório de reparo técnico da Samsung. Eu ouvia rádio, provavelmente MPB FM, jabazeira mas boa, e um senhor disparou a falar sozinho e alto, ao ponto de eu escutar com os fones e a música no ouvido: “é isso. Quando é pra comprar, vem a moça com os seios à mostra te atender prontamente. Quando dá merda, é essa merda, 40 m minutos de espera numa porra de escritório que não vai resolver a porra do seu problema”. Era eu, com os fones de ouvido no talo e ele. E só. E ele seguia: “é uma merda mesmo, você tá aí fingindo que tá feliz com essa música e tá aqui esperando há quarenta minutos por uma porra de um serviço que não funciona. Cidadão só se fode mermo”. Eu me rendi e tirei os fones. Seu Rogério, problema no hardware, da merda que é essa porra toda dessas novas tecnologias. Saiu me desejando sorte, bom dia e dias melhores com meus equipamentos

6. Os taxistas

Capítulo a parte. Não existem taxistas mais abertos a desvendar a própria vida que no Rio de Janeiro. Mas esse post fica pra posteridade. Aguardem.

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