No fundo do oceano há um tesouro, mulher!

Comemoramos o dia das mulheres no dia 08 de março em homenagem e lembrança às 130 trabalhadoras de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque que morreram queimadas após manifestação por equiparação salarial e mais dignidade. Chega a ser anedótico que mais de um século e meio depois as mulheres sigam com salários mais baixos a ponto do Senado Federal aprovar o Projeto de Lei da Câmara 130/11 que estabelece uma multa a empresas que pagarem salário menor para mulheres do que aquele pago para os homens que exercem a mesma função. Se exerce a mesma função, não é óbvio que o salário deve ser o mesmo?

Hoje, graças a incessante e secular luta de milhões de mulheres pelo seu direito de opinião e pela sua liberdade de expressão, veremos muitos textos sobre essa e outras questões fundamentais que envolvem os direitos femininos, como o combate à violência moral, sexual e doméstica, os direitos reprodutivos e a saúde da mulher, a redução da morte materna, a legalização do aborto, a situação da mulher negra, a imagem da mulher na mídia, o preconceito em relação às lésbicas, o trabalho escravo de mulheres. Temas centrais na agenda de todas aquelas que vivem diariamente, no corpo e na alma, o preconceito, a desigualdade de direitos, a estereotipização e a vulgarização da sua imagem, os abusos, a estupidez.

Na minha reflexão deste ano, além de relembrar todas essas batalhas por liberdade, felicidade e igualdade, quero falar um pouco sobre o resgate daquilo que  nos dá energia para lutar, mas que às vezes fica muito escondido, sem que consigamos trazê-lo ao nível do consciente. Clarissa Pinkola Estés, em seu livro “Mulheres que correm como lobos”, nos lembra que o arquétipo da mulher selvagem, existente dentro de cada uma de nós:

“(…) É a intuição, a vidência, a que escuta com o atenção e tem o coração leal. Ela estimula os humanos a continuarem a ser multilingues; fluentes no linguajar dos sonhos, da paixão, da poesia. Ela susurra em sonhos noturnos; ela deixa em seu rastro no terreno da alma da mulher um pêlo grosseiro e pegadas lamacentas. (…) Ela é idéias, sentimentos, impulsos e recordações. Ela ficou perdida e esquecida por muito, muito tempo. Ela é a fonte, a luz, a noite, a treva e o amanhecer. Ela é o cheiro da lama boa e a perna traseira da raposa. Os pássaros que nos contam segredos pertencem a ela. Ela é a voz que diz: por aqui, por aqui”.

Somos todas nós investidas desse poder absolutamente mágico da força criadora, geradora de vida, símbolo da gana e do cuidado. Carregamos em nós as fases da lua, cheias, minguantes, mortas e renascidas. Mês a mês. Somos esse bicho que sente o cheiro da chuva, a energia dos ambientes, a musicalidade dos cantos mais longínquos que habitam a alma. Somos o sexto sentido, a intuição aguçada, o estado de alerta, a integridade. Somos o grito, a lágrima, a força, a capacidade inimaginável de suportar a maior dor do mundo, a sabedoria. Sabemos que o órgão do discernimento não é o cérebro, mas sim o coração. Somos a loba, a leoa, a abelha, a rainha, a bruxa, a criança, a dançarina. Somos tudo que simboliza o mágico, o mistério, a sensibilidade, a sensualidade, a paciência, a persistência, a resignação, o renascimento, o lírico, os ciclos de vida-morte-vida.

Buscar o que somos em essência é uma incessante caminhada que alimenta sobremaneira nossa disposição e coragem para tantas batalhas no mundo objetivo. Entender a mulher que nos habita, compreender quem são ou foram nossas mães, nossas avós, nossas bisavós. Aprender quem são as tantas mulheres que, mesmo oprimidas com violência, desigualdade e invisibilidade, conseguiram submergir do oceano profundo no qual foram arremessadas, uivar para a lua e reorganizar a matilha. Em minha homenagem a todas nós, compartilho o belíssimo trabalho de uma grande e jovem mulher, que de mãos dadas a outras tantas, resgatou do fundo do mar um tesouro desaparecido. Mariana Pires Santos reuniu poemas românticos de brasileiras do século XIX no lindo livro “As brisas sabem meu nome”, mostrando que a luta feminista também se faz com descoberta e com poesia.

Resgatemos todas nossos tesouros escondidos. No desvelar da história de todas mulheres submersas, na batalha feminista diária, no encontro com a nossa essência, no diálogo com o sagrado feminino. Feliz dia das mulheres, guerreiras!

4 Respostas to “No fundo do oceano há um tesouro, mulher!”

  1. Mariana Martins Says:

    lindo lindo lindo!!! Saudade de tu!

  2. marcy Says:

    Amo você, amiga-mulher, que já esteve comigo buscando no fundo do mar e no vento azul um pouco de nós. Saudades.

  3. andressa Says:

    que bonito e profundo, carol. vou espraiar este lindo texto como brisa pra outras tantas mulheres guerreiras que correm com lobos. 8-3-2012, lua cheia sobre a baia de guanabara. bjs

  4. juliana Says:

    Que lindo! Obrigada… Amo ser mulher! um beijo enorme a você…

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