Archive for janeiro \30\UTC 2013

Espelho

janeiro 30, 2013

Ela sempre quis o mundo dentro dela. Buscou fora tudo que era possível caber nos sentidos e nas (in)certezas que encostou pelo caminho. Eis que um dia entrou num enorme salão de espelhos, um labirinto aparentemente sem saída que não a deixou tocar algo que não fosse ela mesma. Tudo refletiu a imensidão de sentimentos que seu corpo carregava e era quase insuportável se enxergar sob tantos ângulos. Seu impulso imediato era quebrar todos eles em busca de ar. Assim o fez. E a cada estilhaço quebrado com violência uma nova parede se erguia, obrigando-a a encarar o que nunca quis ver, o que julgou como errado, o que quis rejeitar. Não havia escape. Gritou, pediu socorro. Não suportava aquela multidão histérica e perdida por toda parte. E entre socos e pontapés que tingiram de vermelho o enorme salão branco que a cegava, ela caiu, entregue. Não tinha nada além do seu reflexo, da sua história, das marcas no seu corpo e do seu olhar. Não tinha garrafa de vinho, não tinha amor pra vida toda, não tinha paixão na esquina, não tinha remédio pra dormir. Ainda passou uns dias se arrastando e brigando com sua dor até que foi inevitável encarar seu reflexo, de olhos fechados, acolhendo a gente toda que a habitava e atravessando cada uma delas em busca de uma força que era sua, mas não só. E então se levantou e seguiu em busca da saída que nunca mais seria alguém que não fosse ela mesma.

(Em 14.11.2012)

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Tempo presente

janeiro 30, 2013

Eu vento
Tu choves
Ele trovoa
Nós relampejamos
Vós maremotais
Eles ressacam

Minha gente é tempestade.

Ecossonâmbula

janeiro 30, 2013

Tenho fé de passarinho
Alma de macaco
Cabeça pirilampo
Abraço de mangueira
Pé de carambola

Pensamento invertebrado
Sentimento trocando pele

Minha busca é de alimento.

Coerência

janeiro 29, 2013

Meu canto é sem nexo

Escalas em árvore
Claves de nuvem
Notas em flores

Pausas.

Suspiro cores
Embaço palavras
Enrosco caminhos

Eu nunca fiz sentido que não fosse querer.

Tudo

janeiro 29, 2013

Todo ser humano é uma sede imensa de amar
Um mergulho em busca de quê
Labirinto esquecido da entrega
Dor em desejo de cura
Oceano com vontade céu

É vento cortando pele
Gozo rasgando silêncio
Sonho inventando mundo
Riso engolindo seco

Lágrima lagarta
Paixão borboleta
Alma flor
Amor, amor!

Vida tanta vida…
Que encosta, enrosca, maltrata, acolhe.
Abraça, vem abraça.
Vida peregrina, vida grata, vida sagrada.

Eu não mereço nada que não seja tudo.