Espelho

Ela sempre quis o mundo dentro dela. Buscou fora tudo que era possível caber nos sentidos e nas (in)certezas que encostou pelo caminho. Eis que um dia entrou num enorme salão de espelhos, um labirinto aparentemente sem saída que não a deixou tocar algo que não fosse ela mesma. Tudo refletiu a imensidão de sentimentos que seu corpo carregava e era quase insuportável se enxergar sob tantos ângulos. Seu impulso imediato era quebrar todos eles em busca de ar. Assim o fez. E a cada estilhaço quebrado com violência uma nova parede se erguia, obrigando-a a encarar o que nunca quis ver, o que julgou como errado, o que quis rejeitar. Não havia escape. Gritou, pediu socorro. Não suportava aquela multidão histérica e perdida por toda parte. E entre socos e pontapés que tingiram de vermelho o enorme salão branco que a cegava, ela caiu, entregue. Não tinha nada além do seu reflexo, da sua história, das marcas no seu corpo e do seu olhar. Não tinha garrafa de vinho, não tinha amor pra vida toda, não tinha paixão na esquina, não tinha remédio pra dormir. Ainda passou uns dias se arrastando e brigando com sua dor até que foi inevitável encarar seu reflexo, de olhos fechados, acolhendo a gente toda que a habitava e atravessando cada uma delas em busca de uma força que era sua, mas não só. E então se levantou e seguiu em busca da saída que nunca mais seria alguém que não fosse ela mesma.

(Em 14.11.2012)

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