Archive for fevereiro \27\UTC 2013

Quando?

fevereiro 27, 2013

É impressionante a quantidade de eventos que acontecem quando a gente resolve sair da mente para passear no presente. A maior parte do tempo estamos envolvidos e agarrados a coisas que aconteceram ou que imaginamos que podem existir se, quando, quem sabe, talvez.

Pouca gente que eu conheço para para sentir que respira, que as pernas estão dobradas, os braços cruzados, a testa franzida, a cadeira estofada, a luz fria, o elevador cheio, a catraca gelada, a porta de vidro engordurada, os cabelos atrapalhados pelo vento na rua, o pombo atrás de migalhas, os mendigos atrás das migalhas, a gente atrás das migalhas. E as migalhas no chão.

É surpreendente como a vida pulsa a cada instante, mas como são raros os momentos que conseguimos de fato estar no agora de cada instante. É assustadora a quantidade de recursos disponíveis que inventamos ou que nos oferecem para não estarmos onde estamos, para esquecermos que o milagre da existência acontece initerruptamente, enquanto pensamos se, quando, quem sabe, talvez.

Todo sentido está no olhar, no toque, no gosto, no cheiro, na escuta. A escuta. Quantas vezes na vida a gente escuta de verdade? Quantas vezes na vida a gente escuta generosamente celebrando a alegria de ouvir o que o outro fala, sem que estejamos pensando no que responder de forma equilibrada ou reativa, ou tentando parecer esperto, bem resolvido, cheio de soluções, mais vítima ou menos na merda? Quando somos realmente capazes de saborear o que entoa cada instrumento daquela música, sem que sejamos acionados a pensar se, quando, quem sabe, talvez.

Tento quantificar no meu dia os minutos em que consegui sair do pensamento para olhar, ouvir, saborear, tocar e cheirar a presença. Não sei se chegam a 10.

Que mundo seria o meu se estivesse aqui e agora?

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O que é o Facebook?

fevereiro 21, 2013

Vira e mexe a compulsão ou repulsa pelo Facebook invade calorosamente as conversas com os amigos. Aliás, pensando bem, não me lembro a última vez que conversei por mais de 10 minutos com alguém e a palavra “Facebook” não se fez presente no diálogo.

Todo mundo, todo dia, viu, leu, ouviu, curtiu, comentou ou compartilhou alguma coisa nessa criatura. Até quando eu passei uns dias totalmente desconectada no Caribe, essa coisa surgia para me lembrar como era bom não estar compartilhando aquele mar escandaloso com meus quase 600 amigos. Amigos não. Contatos do Face. Vamos combinar.

O fato é que estou com uma nova obsessão. Encontrar uma definição para esse negócio. Não uma definição técnica. Queria algo mais filosófico-emocional. E não basta a conceituação. É importante ter um nome, uma marca capaz de abarcar a descrição do troço. Depois slogan e, na sequência, logotipo.

Vamos começar empiricamente pela auto-sensação. Toda vez que eu entro, vejo a minha cabeça, a partir do terceiro olho da testa, transformar-se em um cone espiralado que lentamente vai atravessando a tela até que se descole completamente do meu corpo. Quando ela chega como uma cobrinha hipnotizada dentro do computador eu já não sei mais onde e quando estou, mas sei que não é na cadeira onde estou sentada, nem na hora que marca o relógio. É a primeira porta de entrada no Facebook, que vou nomear como: Portal Volátil da Dispersão Consentida (PVDC).

No PVDC, a minha primeira reação é pressionar loucamente a barra de rolagem, porque se nada acontecia no tempo em que o relógio marcava  e quando eu estava na minha cadeira, é surpreendente como as coisas acontecem quando você entra ali. Penso que passei os últimos 40 minutos analisando um projeto, apenas um projeto, e que no PVDC em meio segundo mais de 10 coisas acontecem. Isso porque, perto de muita gente, eu sou uma pessoa de poucos contatos no Face.

Passado o primeiro êxtase do PVDC, eu resolvo sair curtindo geral, comento algumas coisas e compartilho bem poucas. Depois quero dizer como me sinto. Meio palhacenta, meio descolada, ou conto uma piada ou posto uma música. E ainda fico uns cinco minutos por ali distraída, fingindo que me interesso por algo, enquanto aguardo alguém me curtir. E é aí que saio do PVDC e entro na essência do que penso ser o Facebook: O Maravilhoso Mundo das Carências Supridas Momentaneamente (MMCSM).

Aí, é claro que neste momento do post, meus amigos, ops, contatos do Face, me dirão. “Ah, eu só vou ao Facebook pra compartilhar informação de trabalho”, ou “Gosto de receber informações com a curadoria dos meus amigos”. Ok, você é livre, seja e faça o que tu queres pois é tudo da lei. Acredito em você, mas não estou nem aí. Seja sempre feliz com o seu uso bem resolvido. De coração.

Voltando. O MMCSM começa a se aproximar muito da definição desse mundo esponja que me liquefaz diariamente. Todo mundo se curte muito, se compartilha muito, se comenta muito. Tem sempre alguém prestando atenção em você, no que você retribui com muita atenção ao outro. É isso. O Facebook é uma grande máquina moedora de carências momentâneas.

MóiKaren T – Curtição compartilhada para aplacar sua solidão. Vem!

É claro que pode ser melhor. É claro que não tem logotipo. É claro que não é para levar a sério. É claro que esse post vai pro Face. Curte aí vai? Faz esse chamego no meu coração.

Les Miserables (ou o dia em que virei uma bola de volei)

fevereiro 19, 2013

Não sou crítica de cinema. Mas gosto muito. Também gosto de ver jogos de volei. E no dia em que fui assistir Les Miserables esses dois mundos se encontraram em mim. Atônita na poltrona H14, durante três horas eu me transformei na bola da final da Liga Mundial de 2003, em que o Brasil bateu a Sérvia apenas no tie-break, por um placar de 31 a 29. Arrebatador.

O musical, dirigido por Tom Hooper (o mesmo de O Discurso do Rei), é mais uma adaptação do romance de Victor Hugo, lançado em 1862. Em linhas bem gerais, dentro do contexto das rebeliões que sucederam a Revolução Francesa no início do século XIX, costura diversas tramas paralelas por meio do protagonista Jean Valjean, um ex-escravo que passa por um absurdo processo de redenção e segue durante todo épico perseguido por seu algoz, o oficial Javert. Eu nunca li o livro, mas quero ler. Vou ler. Preciso ler.

Ao sair da sala, por alguns segundos, meu ímpeto crítico-petulante ainda tentou pontuar algumas questões como o não aprofundamento do contexto histórico ou o caráter excessivamente comercial (óbvio!) do filme. Instante em que meu coração berra um estrondoso: “cala a boca, Carolina! Esqueceu do que aconteceu com você durante as últimas três horas?”. Quase ajoelhei para pedir perdão. Ele tinha total razão. Foi chocante.

Como falei, não sou crítica de cinema. Mas gosto muito. Seria incapaz de fazer qualquer análise qualificada do ponto de vista estético ou técnico, embora tenha achado os dois aspectos sublimes. Só sei que cada tomada, texto, música, luz, cena e interpretação desse filme me fizeram chorar como uma menina perdida na floresta escura.

Amor, ódio, compaixão, vingança, perdão, paixão, lealdade, entrega, luta, guerra, desejo. Deus, o livre arbítrio e o destino. Eu simplesmente colapsei diante de cada uma dessas dimensões humanas de uma forma que poucas vezes experimentei na vida num período tão curto de tempo. Fui atravessada por muitas sensações e arremessada sem dó de um lado pro outro dos meus sentimentos.

De repente eu não estava numa sala de cinema. Era um templo, um ritual. As catarses que vinham da platéia eram quase parte da sonorização. A emoção das 400 pessoas que lotavam o São Luiz gerava um campo energético tão forte que arrepiei os pelos da nuca umas 30 vezes. No final, várias pessoas se levantaram e aplaudiram efusivamente. Outras tantas mal conseguiam se erguer da cadeira de tanto soluçar. Convulsão e transcendência. De novo, arrebatador.

Liguei para um amigo e perguntei se ele tinha visto. “Ah… musical de três horas é meio foda, mas é bonito. Podia ser em francês, né?”

(…)

Vá e veja você mesmo. Depois me conta se também se sentiu a bolinha de bocha como o meu amigo.

Deus virou as costas mesmo

fevereiro 18, 2013

Eu sou uma das maiores defensoras de que a capacidade de rir de si próprio é um remédio fundamental para os males egoicos e, quiçá, para o egocentrismo galáctico (porque vai saber se nossos irmãos ETs conseguiram se livrar de suas mentes nefastas, né?). Agora, mãos pra cima e “ô, ô,ô,ô” com a desgraça completa dos pobres é uma doideira. Uma amiga me lembrou dessa música, e os versos, se fossem de rap, deixariam qualquer burguês de classe média, meio intelectual, meio de esquerda, com os olhos marejados. Mas com o Netinho cantando nesse ritmo de rumba axelizada e esses dançarinos alucinando no remelexo, a gente quase começa a mexer a perninha. Sério, se liguem na letra dessa música e tentem fazer o casamento dela com a alegria toda.

O que aconteceu com o aaaaaaaaaabacaxi!??

fevereiro 17, 2013

Ontem aconteceu algo muito chocante em Ipanema. Quem frequenta ou já foi à praia no Rio de Janeiro sabe que junto com a paisagem incrível e o clima de descontração vem um pacote de sons guturais dos mais variados decibéis, desde que muito altos.

O mais famoso deles é o grito do cara do abacaxi. Pra quem não conhece, ele chega de mansinho atrás de alguém que está lendo, dormindo ou simplesmente existindo na areia e dá um berro: AAAAAAAAAAAAABACAXI. Há quem morra de rir. Eu como vítima periódica tenho vontade de matá-lo, mas não menos que o cara do bolo (ou doce, não lembro).

“É O MELHOR, ÉÉÉ O MELHOR, ÉÉÉÉÉÉÉ O MELHOR BOLO (ou doce, não lembro) DÁ PRAIA”. E ele repete isso em frente a sua barraca até você comprar só pra ele ir embora. Tem também o cara do assaí, com um megafone insuportável e uma voz de Alexandre Frota depois da balada de ecstasy com whisky: “ÉOASSAÍASSAÍASSAÍ”. Engraçado mesmo eu acho um cara que vende mate com uma voz muito fina, alta e estridente: “VAI QUERER MATE? MATE GELADO? NÃO? MATE? GELADO? NÃO?” Com esse eu passo mal de rir.

Esses são alguns ícones, mas em geral todos os vendedores gritam muito e são meio folgados, meio engraçados e ficamos todos, às dezenas de milhares, imersos no sol de 40 graus naquela confusão divertida, linda, calorosa e barulhenta, achando tudo ótimo e normal. Isso é amar o Rio de Janeiro.

Eis que estávamos eu e minha companheira de praia de todos os santos finais de semana de sol, no mesmo lugar de sempre, fiando ótima conversa pra variar, quando se aproxima muito lentamente um rapaz, olhando nos nossos olhos como se pedisse permissão para chegar um pouco mais perto. Num tom de voz muito suave e doce, ele calmamente diz: “com licença”. E depois ainda mais tranquilo: “eu poderia lhes oferecer uma esfiha?”.

Nós duas falamos alto e juntas: “O QUE?” A gente entendeu o que ele falou, a questão é que esfiha + praia de Ipanema = “MUSTAPHAAAAAAAAAAAA”, ou “AAAAAAAAAAALIBABA”, ou “KALEDKALEDKALED”. Aquilo não estava fazendo o menor sentido e ainda ficamos atônitas uns dois minutos antes de responder: “não, obrigada querido, mas você é muito gentil”. E não teve outro assunto dali pra frente que não fosse aquele vendedor distoantemente fofo nos oferecendo uma esfiha. Eu quase achei que estava amando de novo.

As coisas andam muito estranhas ultimamente.

Em busca do esteticamente mal resolvido

fevereiro 17, 2013

Eu sou uma pessoa esteticamente mal resolvida. Não estou falando da aparência, porque a variação de percepção desta vai da “caolha meio estranha” à “menina de olhos que querem engolir o mundo”. E embora nenhuma dessas frases pareçam exatamente um elogio, recebo ambas com um sorriso de alegria, um mais escrachado, outro mais poético.

O que falo aqui é sobre textos mal resolvidos em sua estrutura estética. Eu gosto de escrever poemas, mas eles nunca estão dentro das métricas estabelecidas. As estrofes se desencontram, os versos tem dislexia e as rimas são totalmente tontas. Não raro ouço de amigos queridos, que juram gostar de partes das coisas que escrevo: “essa frase é incrível”, ou “essa palavra com essa outra parecem ter nascido juntas”, ou “a ideia geral é muito linda”.

Nunca tinha caído muito a ficha, porque sou daquele tipo de carente que passa semanas feliz com meio elogio (raspas e restos me interessam), mas um dia uma amiga me falou: “achei aquele poema muito lindo”. Oi? Tomei um susto tremendo, não consegui nem sorrir, nem respirar acho. Era uma referência 100% positiva ao todo e eu não estou habituada. No que ela sentenciou: “os outros tem coisas bonitas, mas este está bem resolvido esteticamente”.

Aquilo pra mim foi um horror! Como assim aquele está bem resolvido esteticamente? É claro que não está! Ela não entendeu o poema, a maior parte não entende, mas gosta de uma frase ou outra e está tudo bem! Como eu vou fazer agora para defender o meu estilo mal resolvido esteticamente como uma nova escola literária? Ou simplesmente, como eu vou fazer para sobreviver frente ao fardo de ter escrito qualquer coisa bem resolvida esteticamente?

Fiquei e estou sem chão até agora. Não consigo escrever uma linha de versos que tenha coragem de seguir. As palavras que costumavam pular na minha cabeça e simplesmente grudar no papel, espontâneas e aleatórias, tão mal resolvidas e felizes esteticamente simplesmente se enfiaram feito tatu-bola em algum buraco do meu corpo que me faz soluçar há dias.

Escrevo esse texto como um ato de desespero, no mais explícito e escancarado embate egoico já publicado na história deste blog. Minha esperança está nas minhas crônicas, que costumam ter passagens até engraçadinhas, mas nunca tem um bom final. E colaborem com o fim do soluço. Água não está resolvendo.

(Ai que alívio, mais um final trágico).

A Garça

fevereiro 15, 2013

A graça entorta
Em arte, em canto
Em tronco, em cores

A vida em Garça
Respira flores, colore mares
Transborda olhares
Espalha amores

A gente da Garça
É sonho que abraça
Sorriso que dança
Loucura que toca

As crianças são livres nas ruas da Garça

A Garça chama
Luz. Tem vestido chique e baratinho
Wado em tudo que é canto
E Coisa Linda no Carlinho

A Garça é alimento
É acalento, é amiga
É cantiga
É lua, estrela maré.

A Garça é massa.