Em busca do esteticamente mal resolvido

Eu sou uma pessoa esteticamente mal resolvida. Não estou falando da aparência, porque a variação de percepção desta vai da “caolha meio estranha” à “menina de olhos que querem engolir o mundo”. E embora nenhuma dessas frases pareçam exatamente um elogio, recebo ambas com um sorriso de alegria, um mais escrachado, outro mais poético.

O que falo aqui é sobre textos mal resolvidos em sua estrutura estética. Eu gosto de escrever poemas, mas eles nunca estão dentro das métricas estabelecidas. As estrofes se desencontram, os versos tem dislexia e as rimas são totalmente tontas. Não raro ouço de amigos queridos, que juram gostar de partes das coisas que escrevo: “essa frase é incrível”, ou “essa palavra com essa outra parecem ter nascido juntas”, ou “a ideia geral é muito linda”.

Nunca tinha caído muito a ficha, porque sou daquele tipo de carente que passa semanas feliz com meio elogio (raspas e restos me interessam), mas um dia uma amiga me falou: “achei aquele poema muito lindo”. Oi? Tomei um susto tremendo, não consegui nem sorrir, nem respirar acho. Era uma referência 100% positiva ao todo e eu não estou habituada. No que ela sentenciou: “os outros tem coisas bonitas, mas este está bem resolvido esteticamente”.

Aquilo pra mim foi um horror! Como assim aquele está bem resolvido esteticamente? É claro que não está! Ela não entendeu o poema, a maior parte não entende, mas gosta de uma frase ou outra e está tudo bem! Como eu vou fazer agora para defender o meu estilo mal resolvido esteticamente como uma nova escola literária? Ou simplesmente, como eu vou fazer para sobreviver frente ao fardo de ter escrito qualquer coisa bem resolvida esteticamente?

Fiquei e estou sem chão até agora. Não consigo escrever uma linha de versos que tenha coragem de seguir. As palavras que costumavam pular na minha cabeça e simplesmente grudar no papel, espontâneas e aleatórias, tão mal resolvidas e felizes esteticamente simplesmente se enfiaram feito tatu-bola em algum buraco do meu corpo que me faz soluçar há dias.

Escrevo esse texto como um ato de desespero, no mais explícito e escancarado embate egoico já publicado na história deste blog. Minha esperança está nas minhas crônicas, que costumam ter passagens até engraçadinhas, mas nunca tem um bom final. E colaborem com o fim do soluço. Água não está resolvendo.

(Ai que alívio, mais um final trágico).

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