Les Miserables (ou o dia em que virei uma bola de volei)

Não sou crítica de cinema. Mas gosto muito. Também gosto de ver jogos de volei. E no dia em que fui assistir Les Miserables esses dois mundos se encontraram em mim. Atônita na poltrona H14, durante três horas eu me transformei na bola da final da Liga Mundial de 2003, em que o Brasil bateu a Sérvia apenas no tie-break, por um placar de 31 a 29. Arrebatador.

O musical, dirigido por Tom Hooper (o mesmo de O Discurso do Rei), é mais uma adaptação do romance de Victor Hugo, lançado em 1862. Em linhas bem gerais, dentro do contexto das rebeliões que sucederam a Revolução Francesa no início do século XIX, costura diversas tramas paralelas por meio do protagonista Jean Valjean, um ex-escravo que passa por um absurdo processo de redenção e segue durante todo épico perseguido por seu algoz, o oficial Javert. Eu nunca li o livro, mas quero ler. Vou ler. Preciso ler.

Ao sair da sala, por alguns segundos, meu ímpeto crítico-petulante ainda tentou pontuar algumas questões como o não aprofundamento do contexto histórico ou o caráter excessivamente comercial (óbvio!) do filme. Instante em que meu coração berra um estrondoso: “cala a boca, Carolina! Esqueceu do que aconteceu com você durante as últimas três horas?”. Quase ajoelhei para pedir perdão. Ele tinha total razão. Foi chocante.

Como falei, não sou crítica de cinema. Mas gosto muito. Seria incapaz de fazer qualquer análise qualificada do ponto de vista estético ou técnico, embora tenha achado os dois aspectos sublimes. Só sei que cada tomada, texto, música, luz, cena e interpretação desse filme me fizeram chorar como uma menina perdida na floresta escura.

Amor, ódio, compaixão, vingança, perdão, paixão, lealdade, entrega, luta, guerra, desejo. Deus, o livre arbítrio e o destino. Eu simplesmente colapsei diante de cada uma dessas dimensões humanas de uma forma que poucas vezes experimentei na vida num período tão curto de tempo. Fui atravessada por muitas sensações e arremessada sem dó de um lado pro outro dos meus sentimentos.

De repente eu não estava numa sala de cinema. Era um templo, um ritual. As catarses que vinham da platéia eram quase parte da sonorização. A emoção das 400 pessoas que lotavam o São Luiz gerava um campo energético tão forte que arrepiei os pelos da nuca umas 30 vezes. No final, várias pessoas se levantaram e aplaudiram efusivamente. Outras tantas mal conseguiam se erguer da cadeira de tanto soluçar. Convulsão e transcendência. De novo, arrebatador.

Liguei para um amigo e perguntei se ele tinha visto. “Ah… musical de três horas é meio foda, mas é bonito. Podia ser em francês, né?”

(…)

Vá e veja você mesmo. Depois me conta se também se sentiu a bolinha de bocha como o meu amigo.

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