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Prólogo íntimo para um debate polêmico

março 25, 2013

A complexidade da minha relação com a Igreja Católica tem, por baixo, uns 27 anos de morde, assopra, morde. Cíclica e necessariamente nesta ordem. Fiz o primeiro sacramento ainda bebê e, embora não tenha provas, intuo que meu esguelamento batismal tenha sido motivado pela reflexão precoce de que se era para molhar alguma parte do meu corpo que fossem meus pés e não minha testa, oras! Pra perdoar meu pecado original e abençoar meus primeiros passos. Resolveram cutucar os pensamentos e deu no que deu.

Depois, como toda boa mãe católica, a minha me matriculou na catequese. Lá pelas tantas fiz uma paródia da Ave Maria que me custou a repetência. Também nunca tinha ouvido falar que alguém levava bomba no catecismo, mas fui reprovada e expulsa no ano seguinte. Fiquei muito frustrada porque tinha um objetivo bastante concreto com a autorização para a primeira comunhão: saber que gosto tinha o corpo de Cristo. Que Deus me perdoe o duplo sentido da frase, mas quando eu era pequena minha obsessão era comer a hóstia. Entender aquela onda de entrar na fila, curvar-se ao padre, receber o biscoito, fechar o olho e ver que barato dava.

Como minha paróquia me privou desse direito por indisciplina, resolvi seguir o meu caminho torto e ir a uma igreja de um bairro distante que desconhecia meu passado de trevas. Esforcei-me para disfarçar a minha já natural cara de assustada, fingi de comungada e entrei na fila. Lembro de ter ficado com muito medo de ser descoberta, mas não cheguei a sentir culpa. Já naquele tempo eu tinha criado uma linha direta com Deus e sabia que de algum jeito aquele roteiro era dele também.

Além de pavor, finalmente senti o gosto sem gosto do pão litúrgico utilizado como canal para a remissão dos nossos erros. Grudou no céu da minha boca e fiquei pensando como as pessoas conseguiam se conectar com o sagrado tentando engolir sem água aquela massaroca de trigo. Não contei pra ninguém esse pecado, inédito ao público até a data de hoje, quando me sinto de pazes feitas com o divino.

De qualquer forma, ainda resta alguma culpa católica que me obriga a dizer a amigos e familiares religiosos e estupefatos com os impropérios dessa crônica que, com a licença de suas convicções, eu e Deus temos o nosso jeito de nos relacionar. Geralmente com boa música, muito amor, natureza, gratidão, gargalhadas a valer e perdão. Até onde me consta está tudo certo e parece que sigo salva.

Sei que mesmo com toda essa confusão continuei indo à missa durante toda a infância. Gostava quase sempre do que o padre do meu bairro falava (ele era fransciscano e muito gente boa) e só parei de ir à igreja porque a minha timidez adolescente não pode mais suportar a parte da Paz de Cristo, que até hoje acho constrangedora. Aliás, esse é um problema meu com qualquer dinâmica de grupo que envolva abraçar e beijar gente desconhecida. Sem vinho não dá.

O fato é que depois de muitos casamentos, formaturas e batizados de dois afilhados (alguém sabe se meu supletivo de madrinha me autoriza a comungar?), reconheço que há uma energia espiritual nos ritos católicos que me emociona e me conecta com o sagrado. E também que sou uma curiosa e admiradora confessa da história de Jesus e dos santos católicos (um beijo para Santa Luzia e São Sebastião! adoro). E é também essa relação que tenho com outras manifestações culturais da espiritualidade que “frequento”: um pouco de implicância com as verdades e uma dedicada entrega a seus ritos e à celebração do milagre da vida.

Todo esse preâmbulo intimista é para situar minha arriscada opinião sobre um tema que, junto com política e futebol – alertam os com mais preguiça do debate –, melhor nem começar. Pois eu, transgressora das regras da igreja desde criancinha, com visões muito divergentes de parte de seus dogmas, mas também com grande respeito e sensível à fé de tantos devotos e aos ritos que me tocam, quero dar minha opinião sobre a opinião geral do maior babado religioso do momento: o Papa Francisco. Aguardem.

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Dona Cecília

março 8, 2013

Todo 8 de março é assim. Queridas amigas aguerridas dividindo artigos e mensagens feministas nas redes sociais, queridas amigas debochadas achando a data a coisa mais cafona do mundo, queridos amigos alienados compartilhando flores e clichês. Gosto dessa mesmice de todos os anos, com manifestações tão diversas dessas pessoas que querem dizer o que pensam e sentem. Aliás, como já desabafei antes, só tem um tipo de gente que eu não gosto. Na verdade dois, gente preconceituosa me enche o saco também.

Junto-me ao coro e dou minha contribuição anual de mais do mesmo no Dia da Mulher. Reflexões sobre igualdade, direitos e respeito são sempre importantes, já que, infelizmente, desigualdade, negligência e violência de gênero seguem a mil mundo afora. Nos últimos tempos, tenho buscado sentir a condição feminina em suas dimensões poéticas e sagradas de forma muito intensa também. Foi um pouco do que quis dizer ano passado.

Mas este ano quero gastar meus parágrafos de homenagem à mulher para falar da Dona Cecília, a faxineira do meu andar no trabalho. Eu sempre chego mais cedo que o resto do pessoal e muitas vezes só ela está aqui. Adoro nossas conversas matinais. Fora o Segundo Caderno, as notícias de ciência, uma ou outra entrevista, os quadrinhos e o horóscopo, tenho tido pouquíssima paciência para O Globo. Mas, graças à Dona Cecília, posso debater qualquer assunto na pauta do expediente sem medo de passar vexame. Todo santo dia ela me conta sobre as últimas do prefeito, dos deputados, do trânsito, do clima, da violência, dos acidentes, do papa e, a parte mais divertida de todas, dos divórcios e bebês dos artistas. E minha vida está completa.

Como todas as manhãs, hoje eu a encontrei arrumando o armário do banheiro do nosso andar. Como todas as manhãs, dei um alegre bom dia e emendei um sonoro “feliz dia das mulheres pra senhora”. No que ela respondeu: “Menina, você viu que os deputados derrubaram os vetos da Dilma? O Rio de Janeiro vai ficar sem os royalties do Petróleo. A coisa vai ficar feia. Com tanto investimento prometido vindo por aí, vai ter gente passando aperto. Lá em Campos dos Goytacazes o pessoal fechou a BR 101 e ninguém passa. Botaram fogo e tudo. Lá eles dependem muito desse dinheiro. É, a coisa vai ficar feia”.

Dona Cecília é Ana Cecília Barbosa, 63 anos, 1 filha, 1 neta, mãe e vó solteira desde sempre. Nascida no Méier, mas moradora de Anchieta há 55 anos, acorda todos os dias às 4 da manhã para deixar o nosso andar, nossas estações de trabalho e nosso banheiro limpos e cheirosos. Já trabalhou no comércio, foi operadora de caixa, recepcionista e atendente. Estudou até a 4ª série e chegou a sonhar em ter uma profissão “assim, a partir dos estudos”, mas já não lembra qual era. Hoje, suas “metas a essa altura da idade” são ter uma casa e gozar de boa saúde. Também tem vontade de conhecer Copacabana e Ipanema. Nunca foi à praia no Rio.

Fico imaginando Dona Cecília repórter, levando pra todo mundo, e não só pra mim, um jeito muito especial de informar e comentar as notícias do dia. Eu certamente a seguiria no twitter, curtiria sua página no Facebook e compartilharia seus posts. Fico imaginando-a na praia, com seus amigos sessentões e uns jovens curiosos em volta, contando casos de suas viagens internacionais para cobrir a queda do muro de Berlim ou a morte do John Lennon. Fico imaginando-a contando as histórias que me conta todos os dias para todo mundo e o tanto que todo mundo ia adorar o jeito que só ela tem para transformar um fato que nada afetará sua vida em algo absolutamente central para a existência.

Ouvir, observar e conviver com a doce e noticiante Dona Cecília é uma dose cavalar e diária da pujante e mágica condição feminina num contexto de injustiça social. É um alimento e uma inspiração para o cultivo da força, da gana, da graça, do sonho e da raça que precisamos ter nessa jornada incrível que é ser mulher.

Um beijo, Dona Cecília! E tô com a senhora! O petróleo é nosso! Vamos ao Supremo!

Desabafo

março 4, 2013

Pra mim as pessoas podem ser o que elas quiserem. Melancólicas, multicoloridas, funkeiras, forrozeiras, metaleiras, esportistas, sedentárias, bêbadas, carolas, esquerdistas, alienadas, patricinhas, hippies, ricas, pobres, histéricas, sóbrias, zenbudistas, evangélicas, calculistas, espontâneas, desbravadoras, medrosas, bipolares, bem resolvidas, maníacas por sexo, por beatles, por lego, por praia, por caranguejo, por trabalho, por amor, por dor, por nada. Gosto mesmo assim.

Gente chata que é foda.

Acolhida

março 2, 2013

Não cales tua mágoa
Deixa ela te contar que dói
Abraça-a, dá a ela beijinhos de carinho
Coloca ela no colo e ouve ela chorar
Fica triste com ela, acolhe seu lamento

Não interrompas até que o soluço descanse
Contempla com ela o horizonte mudo
Abraça-a, dá a ela beijinhos de carinho
Diz que vocês estão juntos
E que você estará sempre por perto

Compreende-a profundamente
E diz a ela que entendes
Abraça-a, dá a ela beijinhos de carinho
E fala que enquanto for preciso
Ficarás ali a seu lado

Conta pra ela histórias bonitas
Mostra a lua, as estrelas e os vagalumes
Abraça-a, dá a ela beijinhos de carinho
Fala que a vida é boa
E que logo logo, tudo vai ficar bem