Dona Cecília

Todo 8 de março é assim. Queridas amigas aguerridas dividindo artigos e mensagens feministas nas redes sociais, queridas amigas debochadas achando a data a coisa mais cafona do mundo, queridos amigos alienados compartilhando flores e clichês. Gosto dessa mesmice de todos os anos, com manifestações tão diversas dessas pessoas que querem dizer o que pensam e sentem. Aliás, como já desabafei antes, só tem um tipo de gente que eu não gosto. Na verdade dois, gente preconceituosa me enche o saco também.

Junto-me ao coro e dou minha contribuição anual de mais do mesmo no Dia da Mulher. Reflexões sobre igualdade, direitos e respeito são sempre importantes, já que, infelizmente, desigualdade, negligência e violência de gênero seguem a mil mundo afora. Nos últimos tempos, tenho buscado sentir a condição feminina em suas dimensões poéticas e sagradas de forma muito intensa também. Foi um pouco do que quis dizer ano passado.

Mas este ano quero gastar meus parágrafos de homenagem à mulher para falar da Dona Cecília, a faxineira do meu andar no trabalho. Eu sempre chego mais cedo que o resto do pessoal e muitas vezes só ela está aqui. Adoro nossas conversas matinais. Fora o Segundo Caderno, as notícias de ciência, uma ou outra entrevista, os quadrinhos e o horóscopo, tenho tido pouquíssima paciência para O Globo. Mas, graças à Dona Cecília, posso debater qualquer assunto na pauta do expediente sem medo de passar vexame. Todo santo dia ela me conta sobre as últimas do prefeito, dos deputados, do trânsito, do clima, da violência, dos acidentes, do papa e, a parte mais divertida de todas, dos divórcios e bebês dos artistas. E minha vida está completa.

Como todas as manhãs, hoje eu a encontrei arrumando o armário do banheiro do nosso andar. Como todas as manhãs, dei um alegre bom dia e emendei um sonoro “feliz dia das mulheres pra senhora”. No que ela respondeu: “Menina, você viu que os deputados derrubaram os vetos da Dilma? O Rio de Janeiro vai ficar sem os royalties do Petróleo. A coisa vai ficar feia. Com tanto investimento prometido vindo por aí, vai ter gente passando aperto. Lá em Campos dos Goytacazes o pessoal fechou a BR 101 e ninguém passa. Botaram fogo e tudo. Lá eles dependem muito desse dinheiro. É, a coisa vai ficar feia”.

Dona Cecília é Ana Cecília Barbosa, 63 anos, 1 filha, 1 neta, mãe e vó solteira desde sempre. Nascida no Méier, mas moradora de Anchieta há 55 anos, acorda todos os dias às 4 da manhã para deixar o nosso andar, nossas estações de trabalho e nosso banheiro limpos e cheirosos. Já trabalhou no comércio, foi operadora de caixa, recepcionista e atendente. Estudou até a 4ª série e chegou a sonhar em ter uma profissão “assim, a partir dos estudos”, mas já não lembra qual era. Hoje, suas “metas a essa altura da idade” são ter uma casa e gozar de boa saúde. Também tem vontade de conhecer Copacabana e Ipanema. Nunca foi à praia no Rio.

Fico imaginando Dona Cecília repórter, levando pra todo mundo, e não só pra mim, um jeito muito especial de informar e comentar as notícias do dia. Eu certamente a seguiria no twitter, curtiria sua página no Facebook e compartilharia seus posts. Fico imaginando-a na praia, com seus amigos sessentões e uns jovens curiosos em volta, contando casos de suas viagens internacionais para cobrir a queda do muro de Berlim ou a morte do John Lennon. Fico imaginando-a contando as histórias que me conta todos os dias para todo mundo e o tanto que todo mundo ia adorar o jeito que só ela tem para transformar um fato que nada afetará sua vida em algo absolutamente central para a existência.

Ouvir, observar e conviver com a doce e noticiante Dona Cecília é uma dose cavalar e diária da pujante e mágica condição feminina num contexto de injustiça social. É um alimento e uma inspiração para o cultivo da força, da gana, da graça, do sonho e da raça que precisamos ter nessa jornada incrível que é ser mulher.

Um beijo, Dona Cecília! E tô com a senhora! O petróleo é nosso! Vamos ao Supremo!

Uma resposta to “Dona Cecília”

  1. Luciano Nascimento Says:

    Porra, Carol, foi um dos melhores textos teus que li. Além da vontade de conhecer um ser humano tão maravilhoso como Dona Cecília, o relato me deixou com um buraco na barriga, entende…

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