Prólogo íntimo para um debate polêmico

A complexidade da minha relação com a Igreja Católica tem, por baixo, uns 27 anos de morde, assopra, morde. Cíclica e necessariamente nesta ordem. Fiz o primeiro sacramento ainda bebê e, embora não tenha provas, intuo que meu esguelamento batismal tenha sido motivado pela reflexão precoce de que se era para molhar alguma parte do meu corpo que fossem meus pés e não minha testa, oras! Pra perdoar meu pecado original e abençoar meus primeiros passos. Resolveram cutucar os pensamentos e deu no que deu.

Depois, como toda boa mãe católica, a minha me matriculou na catequese. Lá pelas tantas fiz uma paródia da Ave Maria que me custou a repetência. Também nunca tinha ouvido falar que alguém levava bomba no catecismo, mas fui reprovada e expulsa no ano seguinte. Fiquei muito frustrada porque tinha um objetivo bastante concreto com a autorização para a primeira comunhão: saber que gosto tinha o corpo de Cristo. Que Deus me perdoe o duplo sentido da frase, mas quando eu era pequena minha obsessão era comer a hóstia. Entender aquela onda de entrar na fila, curvar-se ao padre, receber o biscoito, fechar o olho e ver que barato dava.

Como minha paróquia me privou desse direito por indisciplina, resolvi seguir o meu caminho torto e ir a uma igreja de um bairro distante que desconhecia meu passado de trevas. Esforcei-me para disfarçar a minha já natural cara de assustada, fingi de comungada e entrei na fila. Lembro de ter ficado com muito medo de ser descoberta, mas não cheguei a sentir culpa. Já naquele tempo eu tinha criado uma linha direta com Deus e sabia que de algum jeito aquele roteiro era dele também.

Além de pavor, finalmente senti o gosto sem gosto do pão litúrgico utilizado como canal para a remissão dos nossos erros. Grudou no céu da minha boca e fiquei pensando como as pessoas conseguiam se conectar com o sagrado tentando engolir sem água aquela massaroca de trigo. Não contei pra ninguém esse pecado, inédito ao público até a data de hoje, quando me sinto de pazes feitas com o divino.

De qualquer forma, ainda resta alguma culpa católica que me obriga a dizer a amigos e familiares religiosos e estupefatos com os impropérios dessa crônica que, com a licença de suas convicções, eu e Deus temos o nosso jeito de nos relacionar. Geralmente com boa música, muito amor, natureza, gratidão, gargalhadas a valer e perdão. Até onde me consta está tudo certo e parece que sigo salva.

Sei que mesmo com toda essa confusão continuei indo à missa durante toda a infância. Gostava quase sempre do que o padre do meu bairro falava (ele era fransciscano e muito gente boa) e só parei de ir à igreja porque a minha timidez adolescente não pode mais suportar a parte da Paz de Cristo, que até hoje acho constrangedora. Aliás, esse é um problema meu com qualquer dinâmica de grupo que envolva abraçar e beijar gente desconhecida. Sem vinho não dá.

O fato é que depois de muitos casamentos, formaturas e batizados de dois afilhados (alguém sabe se meu supletivo de madrinha me autoriza a comungar?), reconheço que há uma energia espiritual nos ritos católicos que me emociona e me conecta com o sagrado. E também que sou uma curiosa e admiradora confessa da história de Jesus e dos santos católicos (um beijo para Santa Luzia e São Sebastião! adoro). E é também essa relação que tenho com outras manifestações culturais da espiritualidade que “frequento”: um pouco de implicância com as verdades e uma dedicada entrega a seus ritos e à celebração do milagre da vida.

Todo esse preâmbulo intimista é para situar minha arriscada opinião sobre um tema que, junto com política e futebol – alertam os com mais preguiça do debate –, melhor nem começar. Pois eu, transgressora das regras da igreja desde criancinha, com visões muito divergentes de parte de seus dogmas, mas também com grande respeito e sensível à fé de tantos devotos e aos ritos que me tocam, quero dar minha opinião sobre a opinião geral do maior babado religioso do momento: o Papa Francisco. Aguardem.

Uma resposta to “Prólogo íntimo para um debate polêmico”

  1. marcy Says:

    Quando eu era criança, me diziam que quando a hóstia engata no seu da boca é pq vc tem pecado e não se confessou antes de comungar. Como eu odiava falar de mim pra qualquer velhinho celibatário que vivia entre outros homens celibatários e carolas, desenvolvi uma técnica pra dissolver a hóstia na ponta da língua só com saliva e me livrar dos pecados.

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