Atrás do arco-íris

A manifestação religiosa, seja ela qual for, é um direito absoluto, legítimo, que em certa medida eu … sei lá. Não acho que a palavra seja inveja, mas admiro muito as pessoas que acreditam e se entregam à espiritualidade de corpo e alma. Sou muito curiosa em relação às diversas modalidades do sagrado e me emociono em rituais que fiz questão de conhecer e frequentar. Acho a máxima do amor e do perdão absolutamente revolucionária e me parece um ponto de encontro, um boteco no cosmos, onde as personificações de deuses e deusas, monoteístas ou não, tomam uma cachaça e debatem filosoficamente plataformas programáticas, uns mais céticos e outros mais otimistas, sobre os rumos da humanidade.

Eu entendo a perspectiva daqueles que, apoiados em qualquer doutrina religiosa, são contra o aborto, a união homoafetiva, a eutanásia, e tantas outras questões. Mas comungo e estou ao lado das ideias que vão na direção da saúde pública, da liberdade de escolha, da evolução científica, de uma perspectiva mais libertária. O direito da mulher sobre o seu corpo, as pessoas amarem quem elas bem entenderem, as escolhas sobre a própria morte, tudo que vai ao encontro do livre arbítrio ecoa melhor na minha vida. Estou certa, que entre um torresmo e mais um trago, a turma do etéreo também  faça debates acalorados sobre a condição e a contradição humana. E duvido, sinceramente, que haja alguma entidade alienígena que resolva jogar bombas de efeito moral para conter a inflamação transcendental.

Hoje eu presenciei uma cena muito louca. Não sabia se ficava feliz, tensa ou incomodada. Nem com o que exatamente eu estava feliz ou incomodada. Um grupo do movimento LGBT realizou um beijaço em frente à Igreja Matriz Nossa Senhora da Glória do Largo do Machado. Os manifestantes, além de se beijar, cantavam “eu beijo homem, beijo mulher, eu beijo quem eu quiser”. Os católicos rezavam. Foi uma cena tão forte, de duas manifestações tão cheias de verdade nelas mesmas, que eu, num primeiro momento, me emocionei. Com o canto, o beijo, a reza. Diversidade é isso, pensei. Depois, o sentimento deu lugar a um incômodo estranho, porque ninguém ali estava exatamente admirando a pluralidade de perspectivas, como eu. As pessoas estavam se provocando deliberadamente e dos cantos e preces passaram rapidamente a xingamentos e agressões. E aí, fiquei tensa. Todo mundo ficou.

Esse cena-sensação me levou de volta para casa onde novamente me deparei com o tema da diversidade. Sintonizada na mídia tradicional e na mídia alternativa ao mesmo tempo, acompanhei o Papa Chico e as movimentações nas Laranjeiras. Metade dos meus amigos vão me abandonar e metade da minha família vai me re-herdar, mas acho esse Papa bem querido. Gosto dos gestos franciscanos, da simpatia e do fato dele ser argentino. Mas a não ser por uma frase arcoirística do padre convidado “Oxalá ele consiga mudar a lógica do Vaticano”, a cobertura da Globonews foi lastimável. Monocórdica, babaca, rasa, boba. Enquanto isso, a cobertura ninja ia atrás da contradição na rua, entrevistava peregrinos, transeuntes, ativistas, moradores. Revelou mais uma vez, ao vivo, a truculência policial, o cerceamento à liberdade de expressão, e foi ela mesma vítima do silêncio.

Ao fim desse dia intenso, quase amanhã, me juntei a alguns manifestantes que pressionavam pela liberação de jovens presos arbitrariamente pela polícia, porque registrar as cenas de truculência virou incitação ao crime no Rio. Muita coisa aconteceu, mas destaco uma sobre a qual ainda não falei. A equipe da Globo não pode gravar sua passagem porque uma rebelião ameaçou a reportagem. A grande mídia paga o pato de seu histórico unilateral, manipulador e tendencioso que tanto prejudica o exercício democrático no Brasil. Mas acho muito perigoso gritar por liberdade silenciando quem quer que seja. Não pode haver condição para a democracia, para a manifestação das ideias, valores, culturas e visões de mundo. Só podemos ser livres juntos. Todos.

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