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Alimento

agosto 25, 2013

Ainda não completaram dois anos que voltei a morar no Rio depois de uma temporada de quase um em 2010. Dizem por aí que 2012 e 2013 são anos de mini- tsunamis, de pequenas devastações implacáveis, em corações, mentes, instituições e na natureza até. Desmorona tudo que não se sustenta, desaparecem castelos de areia, abrem-se todas as feridas, o sangue jorra inestancável e o cenário é uma mistura de pó vermelho e silêncio que sufoca sem matar.

Neste contexto, o aprendizado cansativo de cair e levantar quantas vezes forem necessárias vai dando espaço para o surgimento de novas perspectivas do olhar, das necessidades, dos desejos e dos sonhos. Vigas resistentes brotam das cicatrizes, que ainda gritam, mas não mais de desespero. A dor é do parto, da esperança, da confiança, da fé na vida afinal.

Se esse é de fato um fenômeno cósmico acho difícil comprovar, mas o fato é que passar por vários traumas no Rio de Janeiro traz para os olhos, o coração e a alma um alimento que nenhuma outra cidade me deu até hoje. As incursões de bicicleta pelo Aterro do Flamengo, Botafogo, Urca, Praia Vermelha eu e o Tim Maia já cantamos bastante. A combinação cabelo ao vento, sol na pele e essa paisagem é absolutamente incansável. Receita já puída, mas repetida tantas vezes quantas possíveis pra alimentar a alma.

E o efeito edificante que a beleza do lado de fora constrói no espírito das pessoas é formidável. A vida carioca é uma vida da rua, da praça, dos largos, jardins, areias, morros, florestas. É o quintal de todo mundo, onde os encontros acontecem, onde a música desentoca o vizinho do silêncio, onde as manifestações ganham bairros e transformam a paisagem urbana em acampamentos sem fim reivindicando um também sem fim de direitos e sonhos.

É assim num sábado de sol no Largo dos Guimarães, onde moradores reclamam da demora e do jeito que chega o novo bondinho, em meio a bandas de artistas locais e tradicionais bloquinhos de carnaval de Santa Teresa. É assim no samba da rua do Ouvidor e arredores, com pouca roupa para ambos os gêneros, dança, caipirinha e um nível de tensão sexual no ar que os menos habituados ao flerte descompromissado chegam a ruborizar. Timidez que um bom pagode do Fundo de Quintal dispersa em sete notas.

Foi assim no mesmo sábado de lua cheia-minguante na Avenida Churchill, no centro da cidade, na companhia de migrantes embasbacadamente encantados como eu, curtindo um jazz de altíssima classe, uma cerveja estupidamente gelada e petiscos servidos na rua apinhada de mesa e de gente farta de sorrir e ser feliz de um jeito que vou te contar. Coisas que só o coração pode entender.

Minha alma canta.

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Epifania

agosto 13, 2013

Se nascer é um troço assustado pra quem conhece a luz e doído pra burro pra quem acende, sair das cinzas e reinventar-se é o choro e o grito.  Juntos. É a dor fecundando o vazio, as perdas em meiose, silêncio desenhando cada retalho do novo tecido. É reformar-se em abraços, caminhos, olhares, sensações. Sentidos. O novo mesmo coração todo remendado. É ver o tempo passar no escuro, esperar o relógio andar no claro, buscar alimento no umbigo. Fazer força quando chega a hora. Desistir, começar de novo, desistir de novo, querer ficar ali por medo. É esgotar-se. Perceber que aquele espaço não te cabe mais, que aquele peso é insuportável. É sentir-se partindo de si mesmo, encaracolando-se nas próprias sobras. É voltar a fazer força, com força. É cambalhota, cordão no pescoço, risco, grito, dor, suor. É sair ensaguentado, amassado, esgoelando de frio, pavor, choro e alívio.  É conhecer e acender a luz. Junto.

É ter esperança.