Carta aberta a Xico Sá

Xico,

Eu sou uma das bilhões de mulheres devotas de Nossa Senhora dos Corações Estraçalhados que diariamente busca um miligrama de sorriso nas suas crônicas. É bem divertido seu galanteamento ativista em defesa da espécie hetero-masculina com alma feminina. Só vamos combinar: o que você escreve é bonito e gentil que só, jóia demais da conta, engraçado até o talo, mas fundamentalmente uma das melhores e mais infalíveis técnicas de conquista da galáxia.

Esse jeito de compreender a alma feminina e render-se a nossos pés – tara boa essa pra literatura – é um dos mais requintados, sofisticados, inteligentes e delicados estratagemas do acasalamento que a espécie Homo sapiens versão XY já inventou. Porque a gente sabe, né Xico? Homem que tem mulher na veia e no espírito de verdade vai dublar Gloria Gaynor no Silvio Santos. Ou age que nem o Laerte: faz pé, mão e usa lingerie sem esconder de ninguém. Depilada.

Gente como você e o seu ‘ch’ará Buarque, que interpretam o nosso lamento e encanto desse jeito tão lírico, tão solidário, tão generoso, tão íntimo, tão “ai que fofo”, em meio parágrafo ganham nossa simpatia, nosso suspiro, nossa fantasia, nosso telefone, nosso endereço e babau! Tá lá um corpo estendido no chão. Mais uma fêmea esperançada, que com seus olhos fica sorrindo, e pela rua vai te seguindo, até ser quase internada como a louca que acreditou ter encontrado aquele com quem ela, aos 82, alimentaria os pombos no domingo pós caminhada anti-osteoporose no Largo do Machado.

A verdade, Xico, é que não tem jeito. XY é XY. E eu te grito essa queixa menos pelos gloriosos Ys de homens como você, Caetano, Chico, Pepeu, entre outros machos femininos que não ferem o seu lado masculino. Quem dera fôssemos agraciadas com essas doses diárias de galanteios disfarçados (ou não) de compreensão e solidariedade. Quem dera homem chorasse, menina, morena. O universo era outro, Xico. Boto fé.

O lance é que nós mulheres viemos do planeta XX. Lá é diferente. Primeiro porque não temos o Y, não pensamos com o Y, não cultuamos o Y. Somos o X, somos duas vezes o X. Pense. Realize uma criatura que todo mês, recém largada do seu pequeno pônei, se desintegra em sangue porque a caminha que ela fez pra receber um outro ser não foi ocupada. É puXXado. Isso pra ficar na ilustração biológica, porque se entrarmos nos meandros espirituais, culturais e históricos de nossos mitos e condições materiais vamos precisar de um gengibre quinzenal no bar da Cachaça.

Alias, fechar raciocínios, por exemplo. Precisa? Não né? O que eu queria dizer é que essas suas crônicas tem esse efeito em mim. De me fazer filosofar distraidamente sobre homens e mulheres, Xs, Ys e feromônios em geral. De onde viemos, afinal? Para onde vamos enfim.

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