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A menina no canto do armário

novembro 12, 2013

Quando eu era pequena, gostava de me esconder no armário quando fazia alguma coisa errada. Mas não só. Era o meu esconderijo predileto quando imaginava a invasão do ladrão que matava todo mundo, ou o momento em que a casa desabava e minha família morria sufocada.

Aquele canto escuro atrás das roupas não me protegia só da represália dos meus pais quando eu fazia alguma bobagem ou desobedecia, ou seja, da rotina. Era o meu refúgio da tragédia que eu diariamente criava para ser vítima e herói da minha própria fantasia.

Era ali que me escondia para ser descoberta. Sofrida, mas viva oras! Acuada, em prantos, arrependida, mas salva. A espera do mais apertado dos afetos que compreendesse todo meu suplício e sofrimento. Que fosse capaz de me perdoar.

Aquele canto escuro no armário seguiu comigo vida afora. Dia a dia, sempre que necessário, pulo desesperadamente para a caixa de madeira, espalhando saias e vestidos floridos pendurados no cabide até alcançar seu fundo.

Construo meu mundo de mártir  a espera de alguém abrir a porta para que eu possa contar a minha história de dor e superação. E entre ansiedades e gaguejos, ser reconhecida, acolhida. Para finalmente, com compaixão e carinho,  receber um beijo de “tudo vai ficar bem daqui pra frente” na testa.

Emocionante é sentir o abraço dela agora. Que abriu a porta, o sorriso, os braços e o coração num afago que eu mal consigo respirar de tanto soluço. Prometeu estar comigo pra sempre, pro que precisar, pra tudo que eu desejar. Com o amor mais profundo que pode existir.

Ela, abrindo a porta para me dar um abraço. Ela, a versão mulher daquela mesma criança perdida no fundo do armário.

Ilha Grande

novembro 2, 2013

Viajar é sempre um jeito de encontrar-se consigo. Mesmo em boa companhia. Grandes conversas dissolvem ilusões, abraços apertam laços. Gargalhadas despertam alegrias do sono profundo. Amizades transbordam o amor.

Conhecer lugares novos (e lindos!) limpam a estrada por onde corre o sangue. As paisagens incríveis desembaçam o olhar, deslumbram e purificam o coração. Mesmo em dias nublados.

A sensação que fica dessa viagem para Ilha Grande é de que cada um de nós é uma ilha. Cheia de gente que vai e vem. De gente que fica. De nuvens que chovem. Às vezes muito.

De silêncio, de tédio, de tristeza até. Das dualidades do universo que estão aí para serem experimentadas nas nuances infinitas dos pólos extremos.

Dias claros chegam, o mar se acalma. O bom tempo volta, em convite generoso para que você torne a navegar. Diferente dessa vez. Um dia no mar é sempre um novo dia no mar.

Todo mundo também é uma trilha. Com seus galhos quebrados expondo tudo que lhe atravessou e deixou sua marca. Vento, chuva, bicho, gente. Com matéria morta pelo chão transmutando-se em outro pedaço de vida que orna e refaz o caminho.

É trajeto do desejo. De chegar ao topo, de ter a dimensão da própria pequenez. De ser parte de uma beleza que nem um suspiro de olhar suspenso é capaz de traduzir.

Guiar-se pelo som do rio, desfazer-se em cachoeira. Cantar, chorar, meditar. Levar consigo o que lhe nutre, deixar para trás o que não cabe mais em você. Aprender com as águas e deixar-se fluir. Seguir.

Até a hora de voltar. Até a hora de partir. E recomeçar.