Tereza

Tereza sabia que toda solidão tem o vazio de seu tempo. Entendia também que não dependia do tamanho da tragédia real da vida de cada um. O abandono de uma noite e um acidente de carro fatal toca uns e outros de um jeito único, na direção unilateral daquilo que leva à falta. O mesmo vale para a miséria e a luxúria. Não há distinção de classe para o vazio.

Mesmo assim, Tereza achava que havia um traço específico dessa época, que não fazia dela mais ou menos especial do que o vazio de qualquer século ou encarnação, mas era seu próprio contexto e só isso dava a ela o direito de circunscrevê-lo como único. Mais especificamente na forma como todos fugiam do próprio vazio. Era indiscutível que o infinito de possibilidades tecnológicas disponíveis para essa função não tornasse seu tempo algo mais impressionante que os outros.

Ela era, assumia sem constrangimento, uma observadora compulsiva do vazio dos outros. No metro, na rua, no aeroporto, no ônibus, na praia, no restaurante, perdia a noção do tempo que passava encarando toda aquela gente com sentimentos distintos frente a telas de diferentes polegadas. Era instigante concluir que quanto mais recursos disponíveis para evitar a solidão delas mesmas, mais evidente era o cenário de ausência geral. Não havia ninguém ali no momento único em que aquela porta se abriu, uma velha senhora ficou sem lugar e o menino com suas balas de um real foi ignorado.

Era difícil para Tereza não se perturbar com a multidão encarcerada em seus não mundos, porque embora ela não gostasse de julgar se aquilo era certo ou errado, era fato que aqueles corpos não estavam onde estavam, mas sim buscando desesperadamente algo que não estava ali. Imaginava a tentativa totalmente compreensível e certamente frustrada de buscarem no outro o que não encontram em si próprios, de encontrarem em outro lugar um conforto que não existe no presente. Quantas curtidas cada uma daquelas pessoas precisava para se sentir notada? Quantos comentários para se sentir acolhida? Quantos compartilhamentos para ser relevante. Quantos grupos, amigos, conversas, debates, encontros e desencontros virtuais são necessários para evitar a própria solidão?

Além de não julgar como certo e errado, Tereza aproveitava, com admitido prazer, para fazer do seu próprio corpo e do efeito que a imagem do corpo dos outros causava nela um laboratório de contato com a sua solidão. Porque era ali, vendo todo mundo tão fodidamente sozinho, que ela era capaz de encostar um pouco mais a própria dor até chegar a um silêncio sepulcral dentro de si. Não era fácil sentir, mas na medida que avançava sabia-se mais melancólica que triste, mais poética que feliz, mais preenchida de si mesma, mais sozinha, mais inteira.

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