Retiros espirituais

Desde o primeiro dia que pisei em Nova Iorque sabia que ia voltar. Isso foi ótimo porque tirou o desespero de conhecer as trezentas atrações de um quarteirão. Nos três dias livres que tive, decidi me deixar levar com pré-planos altamente ‘caíveis’ ao sabor da primeira esquina que mudasse minha rota.

Assim fui parar em Williamsburg, um canto do Brooklyn que eu não sabia nada a não ser que era cool. Brechós e uma cervejaria era o que eu tinha lido na diagonal. E não achei nem um, nem outro. Fui seguindo os muros grafitados, guiada pela arte de rua e pelo meu Google Maps. Que, de repente, parou de funcionar.

Bem tranquilo porque eu estava no pier do East Side River, com a clássica vista do skyline novaiorquino e planos de chegar na Brooklyn Bridge, alugar uma bicicleta e atravessar a ponte até Manhattan. Era só descer o rio sempre à direita. Como diz o povo sabido do meu país, “não tinha perdido”… Sabe nada inocente.

Serelepe e assoviante, eu vejo um senhor com um chapelão redondo, roupas pesadas, cabeça raspada na frente e cachinhos do lado. Ele estava de mãos dadas com um meninico fofo, cocoruto igualmente raspado e cachinhos dourados caindo ao lado do chapéu. Tirei uma foto e achei o máximo ver um judeu ultra-ortodoxo com seu filhote caminhando pela rua num dia de sol.

Depois vi mais 3, mais 50, mais 437, mais 2,3 mil, mais… só tinha judeu ultra-ortodoxo na rua. E achei realmente incrível aquilo de ter judeus ultra-ortodoxos brotando de todos os cantos. Era um bairro inteiro de judeus ultra-ortodoxos! So cool Williamsburg.

Só que aí o bairro não acaba. E os judeus ultra-ortodoxos so cool não param pra falar comigo. E eu não tenho um mapa, e os letreiros dos estabelecimentos estão em hebraico. E eu já estou há meia hora vendo só aquele povo ultra-customizado. Preciso achar uma saída. Começo a me ultra-desesperar.

Outra meia hora e dá-lhe chapéus, barbas, cachinhos e nada de um letreiro em inglês. E nada de alguém falar comigo. Mais tarde descubro que estou em uma das maiores comunidades Satmar fora de Israel. Para quem é ultra-leigo em judaismo e suas diversas correntes (?) como eu, é uma turma que segue a Escola Húngara Ultra-Ortodoxa, fundada por Rabbi Hillel Lichtenstein e seu genro Akiva Yosef Schlesinger nos anos 60 do século XIX. Shalom Wikipedia!

Tem uma série de questões envolvendo tretas entre essa tendência (?) e o governo de Israel, mas para contextualizar essa crônica e a minha situação, o mestre dos fundadores dessa linha (?) dizia que “tudo que é novo é contra a Torá”. Outras regrinhas básicas: mulheres devem usar saias abaixo dos joelhos e meias longas opacas a partir dos 3 anos. E lenços para esconder o cabelo.

Aí sim eu entendi porque ninguém parou para falar comigo. Eu tinha mais de três anos, usava uma mini saia vermelha amora (adoro!), all star sem meia, blusa regata branca, óculos escuros e um coque no alto da cabeça que deixava minha nuca totalmente nua. Se tinha uma coisa errada, nova e proibida naquele sábado de sol sagrado para eles era eu tentando me aproximar com o simpático “Hi, sir, please…” Vácuo. “Excuse me, do you know…” Toco. No décimo ignore user da geral eu parei.

Meu estado era de calor, sede e pré-pânico quando uma hora e meia depois encontro um grupo de chineses. Eu nunca fiquei tão ultra-feliz de encontrar 50 chineses fazendo turismo num bairro de judeus ultra-ortodoxos. Seria a minha salvação se não fosse por um detalhe: só falavam chinês.

A cena vocês podem imaginar. Eu gesticulava, falava alto e devagar, abrindo bem a boca no estilo Lima Duarte no “eu quero melão“, “how can I fuck get out of here?”.  Eles se entreolhavam e depois de fazer cara de “hein” começavam a rir. Até que começaram a tirar fotos de mim. Realmente era muito exótica a minha presença ali. A essa altura eu já estava fazendo selfie com a chinesada achando a vida muito engraçada.

Ainda tentando me comunicar para achar uma saída, avisto ao longe uma luz de carro de polícia. Saí correndo igual uma louca, que também, àquela altura, já era a minha melhor fantasia pro dia. Cheguei perto do policial mexicano com uma falação tão histérica em crise de riso que ele também começou a rir sem fazer a menor ideia do que eu estava falando.

Concentrei e expliquei a situação, no que ele me apontou um metrô a 4 blocos dali. Perguntei se eram quadras novaiorquinas, resmunguei minha sede e cansaço, mostrei meus 17 calos e pedi peloamor de Santa Maria de Guadalupe que ele me desse uma carona.

E foi assim que eu não cheguei a Brooklyn Bridge e meu sonhado passeio de bicicleta no dia mais reality show que eu já vivi na minha existência. Andando no carro de polícia. E a gente Satmar que me viu no banco de trás da viatura ganhou mais um motivo para sorrir ultra-feliz. “Pegaram a menina da saia vermelha” foi o boato que correu o bairro naquele dia.

 

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