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Caminho contrário

setembro 7, 2014

Há semanas se instalou no meu desejo uma ideia fixa. Viajar o Rio São Francisco da foz à nascente durante um mês. Penso nisso várias vezes durante o dia. Fantasio lugares, olhares, encontros, silêncios, imagens, vozes, sonhos e miragens.

Começar pela foz é um jeito de aprender com o rio como é que se morre. Como esse encontro com o mar muda tudo: a cor, o sabor, o volume, as espécies que habitam suas águas, que nunca mais serão doces. Que nunca mais terão margens, que nunca mais seguirão o mesmo curso senão a existência dispersa nos oceanos.

Algo em mim precisa morrer. Transbordar a margem, salinizar e virar mar. Quero olhar-me nessa partida, sentir-me nesse fim, entregar-me sem resistência ao lugar onde tudo se encosta. Seguir e nunca mais voltar, apenas ter na memória da pele os dias doces, às vezes riacho, outras cachoeira.

Mas algo em mim também precisa nascer. E depois de vel(ej)ar-me, quero seguir o curso contrário, navegar rio acima, no avesso da corrente. Mergulhar de corpo e alma na intensidade caudalosa até definhar-me por completo, gotejando entre as pedras.

Margear o Sergipe, percorrer Alagoas, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Minas Gerais. Onde fincam minhas raízes, canta minha ancestralidade e habitam minhas montanhas. Quero encontrar a primeira gota que um dia vira mar. Nascer com o rio.

E recomeçar.

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Noite

setembro 7, 2014

Resolveu Deus, o universo ou a evolução que aos seres humanos fosse dada a prerrogativa de não seguir o curso natural do equilíbrio cíclico e dialético da natureza. Ou seja, não basta existir para a sobrevivência e morte, pode avacalhar o papel de cada coisa e fazer o que se bem entende. Aí a experiência de viver se torna essa fantasia doce, excitante e depressiva, que não se sabe bem onde vai dar, mas parece algo extraordinário, e vive-se e morre-se por tudo, e vale amar e vale odiar e vale dar o significado que se bem entende pra qualquer coisa. E fica todo mundo tentando dar sentido, na mesma medida em que fica um mundo todo tentando tirar o sentido. E então tem a árvore, as flores, o sol, o mar, os patinhos na lagoa, a borboleta azul, o vento, o canto dos pássaros, o cheiro da dama da noite, a lua com sorriso da gente e do gato de Alice. E ficamos nessa, a essa hora da noite e com a noite, na delícia da saudade de ser um sopro e mais nada, afastando a demanda ansiosa e urgente de ter escolha.

Sentido

setembro 7, 2014

E de vez em quando vem um cisco de certeza de que a verdade mais essencial mora no Carnaval.