Caminho contrário

Há semanas se instalou no meu desejo uma ideia fixa. Viajar o Rio São Francisco da foz à nascente durante um mês. Penso nisso várias vezes durante o dia. Fantasio lugares, olhares, encontros, silêncios, imagens, vozes, sonhos e miragens.

Começar pela foz é um jeito de aprender com o rio como é que se morre. Como esse encontro com o mar muda tudo: a cor, o sabor, o volume, as espécies que habitam suas águas, que nunca mais serão doces. Que nunca mais terão margens, que nunca mais seguirão o mesmo curso senão a existência dispersa nos oceanos.

Algo em mim precisa morrer. Transbordar a margem, salinizar e virar mar. Quero olhar-me nessa partida, sentir-me nesse fim, entregar-me sem resistência ao lugar onde tudo se encosta. Seguir e nunca mais voltar, apenas ter na memória da pele os dias doces, às vezes riacho, outras cachoeira.

Mas algo em mim também precisa nascer. E depois de vel(ej)ar-me, quero seguir o curso contrário, navegar rio acima, no avesso da corrente. Mergulhar de corpo e alma na intensidade caudalosa até definhar-me por completo, gotejando entre as pedras.

Margear o Sergipe, percorrer Alagoas, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Minas Gerais. Onde fincam minhas raízes, canta minha ancestralidade e habitam minhas montanhas. Quero encontrar a primeira gota que um dia vira mar. Nascer com o rio.

E recomeçar.

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