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Carta ao Papai Noel

novembro 17, 2014

Querido Papai Noel.

Cansei do mundo real. Cansei da velocidade, da compulsão, da correria. Cansei da falta de tempo, do excesso de verdades, das vaidades, da importância que as coisas desimportantes ganharam. Quero um mundo ao contrário. Quero de volta a infância, a calma, o riso, o balanço do parquinho. Quero acreditar em todas as fantasias, a começar por você.

Essa cartinha é um manifesto lúcido de alguém que crê fielmente que você existe. Vou colocar dentro de um pé-de-meia velho colado na lareira que eu desenhei hoje mesmo na parede. Apesar dos 36 graus lá fora. Mas não se preocupe porque ao lado dela eu pintei um freezer. E deixei aberto. Estou tentando equilibrar as coisas por aqui.

Dois presentes eu já anunciei no Facebook. Se o algorítimo não me ferrou, você já deve ter visto. Um anão de jardim igual ao do pai da Amelie Poulain e um nokia com jogo da minhoquinha. Prefiro prata, mas se não achar pode ser preto. O anão tem que ser igualzinho. Blusa verde, calça vermelha, barba e bigodes brancos. A bochecha dele é rosa.

Sobre este outro desejo eu preciso te contar. Um dia fui dormir mentalizando a frase “o que eu quero na minha vida”. Minha terapeuta falou que era bom fazer isso antes de dormir. “Mentaliza o que você quer e você vai acordar com a resposta que precisa”, ela disse. E eu acordei com uma convicção realmente impressionante. Quero uma bola de vôlei. Pode ser Mizuno, porque as outras assam o braço. E prefiro manchete a toque.

Mas sinto saudades de outras brincadeiras além do vôlei. Corda, pogobol, papel de carta e canetas coloridas. Se tiver adesivo pequeno e brilhante vou achar mais legal ainda. Também quero coisas pra brincar de boneca, mas dessa vez a boneca sou eu, então tem que ser grande, maior que aquela que era do meu tamanho quando eu tinha quatro anos. O triplo dela pra cima, o dobro pros lados. Vestidos coloridos, batom, brinco de argola, pulseiras e colar. Esmalte eu não sei passar direito, mas minhas bonecas nunca reclamaram, então traz.

Quero umas coisas meio abstratas, que eu acho melhor pedir pra Deus, Yemanjá ou Santa Luzia, mas já que estou aqui, não custa falar. Vai que… Tipo, que meus amigos demitam seus carrascos internos. Que convivam com seus monstros, igual no Monstros S.A. Ia pedir isso pra todo mundo, mas cansei da megalomania também. Ajuda meus amigos que já está bom. Ajude-os a contratar a moça boa que faz carinho e traz bolo de fubá com chá de maçã pro lugar do cara do chicote. Explica que quanto menos julgamento e martírio, mais o dia fica bonito. Mesmo com chuva.

Faça-os comer bolo de fubá e tomar chá de maçã da moça carinhosa. Incansavelmente.

Cuide bem das renas, distribua a renda com os anões. E dê um beijo na sua velha.

Felicidades pra você, Papai Noel! Tudo de bom!

Carol

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Helena

novembro 2, 2014

Helena procurava alguém capaz de amar. Alguém que pudesse se entregar sem medo. Que soubesse que ninguém é perfeito. Helena procurava alguém que transformasse fantasia em inventividade, que fizesse do real um desafio eterno e intenso do encantamento pela vida. Alguém que topasse seguir com ela pela floresta escura, enfrentando seus medos, jogando luz sobre suas sombras. Alguém capaz de perdoar a si próprio e ainda mais aos outros. Alguém que descobrisse seu feminino sem atacar sua vontade de jogar bola de gude. Que pudesse admirar seu caminho, abraçar sua dor, cuidar das suas feridas sem jamais ignorá-las. Alguém capaz de fazê-la acreditar que o sofrimento já passou, que ela era linda e que merecia ser feliz.

Ela sonhou. Acordou. Abriu e fechou os olhos. Sorriu. O rastro de quem procurava ficou em seu peito. E deixou mais fácil o caminho. Helena assoviou bachianas nº 5, se espreguiçou e foi andar de bicicleta na praia de Botafogo.