Archive for dezembro \13\UTC 2015

Vício

dezembro 13, 2015

Tem coisa que cisca a gente. Coça, roça, desajeita. Até que dói. E de saber letra faz a coisa querer forma. Empurra, insiste, incomoda. Fica ali. À espreita. E se não vira escrito vira briga. Quando rendida procura papel, caneta, teclado pra recostar. Cansa até encontrar palavra. E a palavra é feito vício. Vai uma, vai outra, puxa mais, e vai. E quando vai, já foi você junto. Querendo mais do que te ciscou e você nem sabia, mas era desenho da coisa primeira. Feito larva. Feito girino. Feito broto de orquídea. Ninguém possuído de palavra pensa em parar de ser.

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Copacabana

dezembro 12, 2015

Quantas fragilidades cabem em uma cena?

Ele, negro, enorme, forte, faxineiro. Ela, loira, mínima, fora de si. “Me bate, filho da puta. Me bate”. Ela agarrada à camiseta dele, machucando-o de todas as formas que seu frágil corpo permite. “Me bate se você for homem. Quero ver”. Ele tentando se desvencilhar de todas as formas, olhando em volta, olhando para ela, dizendo alguma coisa que não se escuta. Umas cem pessoas passando, parando ou sentadas, observando. “Briga de casal”, comentou um garçon. “A mulher do Costa que era assim”, respondeu o outro. “Está melhor aqui fora que lá dentro”, diz o cliente trocando de mesa, reclamando da programação da TV.

Dois seguranças do quarteirão (!) se aproximam e tentam separá-la dele. “Bate, bate, bate filho da puta”. Ela rasga a camisa dele, o que facilita sua fuga para dentro do prédio. Ela se agiganta e soca a porta de vidro da portaria que se estilhaça no chão. Todos escutam, observam, comentam.

A polícia chega. Ela conta que o faxineiro não permitiu sua entrada no prédio, que tinha dormido num apartamento ali na noite anterior, que suas coisas estavam lá. Ele talvez tenha explicado que o morador pediu que sua entrada não fosse permitida, e ele impediu que ela entrasse, retirou-a da portaria à força. Cumpriu as ordens do morador que a convidou no dia anterior para passar a noite ali e a deixou sem seus documentos, suas roupas e sabe-se lá mais sem o que.

Alguém sai do prédio com uma sacola de roupas. “Filho da puta”, ela segue. “Filha da puta é você, sua vadia”, grita uma outra voz masculina que a visão não alcança. Ela continua chorando e gritando. A polícia ameaça levá-la à delegacia por dano ao patrimônio, ela berra que o faxineiro não a deixou entrar, agrediu-a, “esse filho da puta”. A polícia vai embora. A moça frágil senta na calçada, chora, grita vez ou outra e passa uma parte da noite ali.

O faxineiro negro entra, talvez chore, talvez sofra, talvez vá dormir pensando naquilo e no lixo que precisa recolher na manhã seguinte.

Todos olham, passam, comentam.

Desequilíbrio

dezembro 10, 2015

Faz falta uma dor não fabricada. Uma raiva do vazio, da incapacidade de sentir o vazio, faz falta. Faz falta uma angústia não notícia. O silêncio do discernimento. A falta consciente faz falta.

O cardápio de sentimentos forjados na embriaguez jornalística sobra. A seletividade da tragédia sobra. A invisibilidade da injustiça sobra. O ódio oportunista sobra. A magia das idealizações fáceis sobra. A incapacidade de perceber o que comove sobra. Você projetado em qualquer coisa sobra.

O outro e sua realidade faltam.

A situação política deixa tonto. A morte do Rio Doce comove. A disputa pela hegemonia mundial faz pensar no fim do mundo. A revolta dos estudantes comove. Assumir posição na conjuntura exige. A reação das mulheres comove. A indignação por condições humanas na sua esquina falta. O ódio pelo diferente sobra. Os refugiados e suas mortes comovem. A opinião sobre a imigração sobra. Os pretos, pobres e suas juventudes assassinadas comovem. O desejo de vingança cego sobra. O incêndio dos recurso naturais labaredeiam.

A desconexão se alastra.

E seguimos inertes, ativos, confusos, perdidos, reativos, pensando-nos presentes, sendo a história não contada.