Copacabana

Quantas fragilidades cabem em uma cena?

Ele, negro, enorme, forte, faxineiro. Ela, loira, mínima, fora de si. “Me bate, filho da puta. Me bate”. Ela agarrada à camiseta dele, machucando-o de todas as formas que seu frágil corpo permite. “Me bate se você for homem. Quero ver”. Ele tentando se desvencilhar de todas as formas, olhando em volta, olhando para ela, dizendo alguma coisa que não se escuta. Umas cem pessoas passando, parando ou sentadas, observando. “Briga de casal”, comentou um garçon. “A mulher do Costa que era assim”, respondeu o outro. “Está melhor aqui fora que lá dentro”, diz o cliente trocando de mesa, reclamando da programação da TV.

Dois seguranças do quarteirão (!) se aproximam e tentam separá-la dele. “Bate, bate, bate filho da puta”. Ela rasga a camisa dele, o que facilita sua fuga para dentro do prédio. Ela se agiganta e soca a porta de vidro da portaria que se estilhaça no chão. Todos escutam, observam, comentam.

A polícia chega. Ela conta que o faxineiro não permitiu sua entrada no prédio, que tinha dormido num apartamento ali na noite anterior, que suas coisas estavam lá. Ele talvez tenha explicado que o morador pediu que sua entrada não fosse permitida, e ele impediu que ela entrasse, retirou-a da portaria à força. Cumpriu as ordens do morador que a convidou no dia anterior para passar a noite ali e a deixou sem seus documentos, suas roupas e sabe-se lá mais sem o que.

Alguém sai do prédio com uma sacola de roupas. “Filho da puta”, ela segue. “Filha da puta é você, sua vadia”, grita uma outra voz masculina que a visão não alcança. Ela continua chorando e gritando. A polícia ameaça levá-la à delegacia por dano ao patrimônio, ela berra que o faxineiro não a deixou entrar, agrediu-a, “esse filho da puta”. A polícia vai embora. A moça frágil senta na calçada, chora, grita vez ou outra e passa uma parte da noite ali.

O faxineiro negro entra, talvez chore, talvez sofra, talvez vá dormir pensando naquilo e no lixo que precisa recolher na manhã seguinte.

Todos olham, passam, comentam.

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