Vagão

Bianca chegou junto com o metrô na plataforma e entrou. Era o horário de mais movimento e ela mal se deu conta que tinha entrado num vagão normal, não exclusivo das mulheres. Estava cheio, mas não lotado. Distâncias confortáveis entre seu corpo e dos demais passageiros. Alguns conversavam, outros tantos mexiam em seus telefones. Ninguém lia. Na parada seguinte, a porta se abriu. Em seu peito um aperto. Olhava em volta, alerta. Tudo continuou bem. Gente saindo, gente entrando. Bianca destravou a respiração e percebeu que há muitos anos, no horário de pico, só andava no vagão das mulheres. Sem se preocupar com olhares lascivos, com perseguições na saída, com encoxadas súbitas, com toques “acidentais” em seu corpo. E que mesmo viajando num vagão tranquilo, onde homens, mulheres, pessoas mais velhas e crianças seguiam sem qualquer incidente, estava tensa, como todo santo dia em cada passo na rua esburacada ou na calçada de pedra portuguesa. Convivendo com situações de apreensão ou risco real, nas vias, estações, paradas e transportes dessa e de qualquer outra cidade do mundo por onde tinha passado. O vagão das mulheres era para Bianca o vagão de um mundo sem medo.

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