Sueli

Sueli sabia a quantidade de pensamentos e movimentos errados que fazia todos os dias. Errado era sempre relativo, ela pensava, mas tinha que ter um ponto de referência. E adotou seu corpo e seu cotidiano como parâmetro. O que foi uma tragédia porque pareceu ainda tudo mais errado do que a comparação com o Osho, ou a Simone de Beauvoir, ou a Angela Davis, ou qualquer referência de correto que ela poderia crer que fosse boa. Ou pelo menos coerente com uma vida plena que ela achava que devia perseguir. E sinceramente, pra ela, ficou tudo mais difícil. Num primeiro momento houve a sensação de conexão, que todos os gurus adotados professavam e, claro, aquele era o caminho. O corpo, as sensações, os sentimentos. As ações? Uma tragédia. Tentava sempre de tudo, inclusive achar que cada dia era um dia, que renascer é agora e sempre, que o infinito é o momento de viver. Demitir o carrasco interno, substituir pela vovozinha fofa que traz chá de camomila e bolo de laranja, se abraçar, se acolher. Acreditava piamente que seria melhor, pra ela mesma, até pra chegar um dia a ser menos ranzinza com a cagação de regra sobre qualquer assunto, inclusive a vida dos outros. E começar a cagar suas próprias regras, como faziam Osho, Simone de Beauvoir e Angela Davis, com uma história e dignidade muito melhor que a dela, mas o importante era se conectar e viver a própria crença, o próprio desejo, desapegar, seguir, e quem sabe um dia contar uma boa história do que deve ser a vida para aqueles que não sabem, ou não entenderam ainda. E o mundo aquela bosta verde e marrom, fétida. Sua vida um pouco melhor, mas com cagadas em cataratas, caminhos errados, repetidos, tudo um grande cocô gigante e pouco saudável, o que falava muito sobre sua alimentação e a do mundo. E aí passou pela cabeça dela que talvez a vida seja só viver mesmo, sem muito sentido, ou com o sentido que ela queira dar. E se é algo bonito como ser de esquerda e gostar de plantas está bem. E está bem também morrer de preguiça de qualquer idiota que pense o contrário. E que está bem lutar pelo que se acredita, e está bem ser romântica, embora empiricamente seja um erro, e está bem achar que o grande problema do mundo é a cagação de regra, e ser empática com o mimimi, e estão ok suas escolhas, certas ou erradas, é simplesmente viver. O que não vai levá-la para lugar algum a não ser o próximo ano, e os 100 novos fios brancos, as rugas se apresentando, o Carnaval em doses mínimas, os dias com a família com mais afeto que conflito, a preguiça eterna da cagação de regra do mundo, e a própria cagação de regra que acha que o mundo não entendeu a importância de porra nenhuma. De saber que estão todos muito fodidos, cheio de conflitos, mas que foda-se a angústia de quem pode pagar uma psicanalista, que o mais importante pra ela é a desigualdade social. Embora ela mesma pague uma psicanalista e viva nessa contradição bizarra, de não poder mexer um palito pra fazer a vida dos pobres melhor, além de amar sua família conservadora e capitalista. O que Sueli podia fazer com isso? Com seu berço esplêndido, sua vida privilegiada e sua trajetória de descobertas? Podia salvar o mundo? Não. Podia convencer sua família? Não. Podia se sentir menos culpada? Não. E isso a tornaria mais filha da puta e parte do sistema? Provavelmente. Mas ela estava ali. Sem saber exatamente o que significava viver plenamente. Com desejo de muita coisa, fazendo um monte de besteiras todos os dias. E se sentindo demasiadamente humana.

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