Seu Arnaldo

O seu Arnaldo era o meu vizinho de muro. Era a única casa da rua em que a gente não tinha relação com as crianças. Porque não havia crianças. Seu Arnaldo era um senhor, que a mim parecia muito, mas muito velho. Provavelmente não tinha 60 na época. Mas éramos todas crianças que brincavam na rua, de pique-esconde, de queimada, de bet, de vôlei. No vôlei era o mais legal, porque a gente pendurava a rede entre uma lança de um portão e outro e fechava a rua. E para um carro passar a gente tinha que parar o jogo e os dois mais altos levantam a rede e ele seguia. A rua era nossa. Mas a gente era generoso.

Não lembro qual foi a primeira vez que o seu Arnaldo furou a nossa bola. Eu devia ter 8 anos. Os grandes já falavam que era perigoso jogar bola perto da casa do seu Arnaldo. Mas os amigos mais próximos estavam todos ali perto da casa dele. Não tinha jeito, a Lud e a Lili moravam quase em frente a minha casa. A Pati no quarteirão seguinte, mas na direção da casa dele. Geral estava entre um quarteirão e outro, e a casa do seu Arnaldo era a da esquina. A logística era propícia para montar a rede ali, entre a casa da tia Ieda e da Dona Mariquinha, que era minha outra vizinha de muro e dava outra história.

Eu só sei que o seu Arnaldo furava as bolas que caíam no quintal dele. Lembro da primeira vez que toquei a campainha pedindo a bola. Apareceu a mulher dele. Não lembro, mas podia chamar Eleonora. Eleonora abriu a porta com uma cara de “odeio criança” e falou que não viu bola nenhuma. Frustradas as tentativas de diplomacia, passamos a entrar no quintal pulando o muro em silêncio para procurar a bola. E descobrimos que ele mantinha um cemitério de bolas furadas no jardim. Uns três cadáveres foram resgatados nesse dia para serem enterrados com honras das famílias.

Mas o pior foi a vez que o seu Arnaldo tirou a Ximbica da gente. A Ximbica era uma jabuti que minha mãe adquiriu para curar minha asma. Ela já tinha feito de tudo. Pneumologista, purê quente nas costas, natação, Santo Expedito, Guilherme Arantes e tudo mais que ela acreditava que ia me curar. E alguém falou que jabuti dava jeito. Assim a Ximbica chegou lá em casa. Depois do Celito, um gato siamês que só ficava em cima do muro. E sumiu sem qualquer efetividade medicinal.

Mas a Ximbica era um jabuti fêmea em missão de cura. A gente desistia da bola pra ver a Ximbica rodar e rodar com o casco no chão. Ela comia alface e churrasco. Não brincava com a gente diretamente, a não ser quando deitava de costas. Era o brinquedo vivo da criançada (eu sei que não devia falar isso, mas estávamos na década de 80 e viajávamos no porta-malas). A Ximbica era também a pajé da nossa casa para minha mãe, com aquela cara tranquila e forte de xamã.. E sabe o que fez o seu Arnaldo? Denunciou a minha mãe pro Ibama. E perdemos a Ximbica no mesmo dia em que tive uma crise de asma. Mamãe não foi presa e me levou pro hospital.

Eis que a vida dá voltas. Desde que me mudei de apartamento recentemente, 30 anos depois de nunca mais ver o seu Arnaldo, dois meninos, netos da minha vizinha, brincam de bola no corredor. E a bola batendo na parede irrita, mas na porta gera outro tipo de sentimento. Ruim. Não vou alimentá-lo.

Acontece que eu simplesmente não consigo reclamar. Não consigo ligar pra portaria, não consigo escrever um bilhete, não consigo falar com a minha vizinha. Sei lá, explicar que trabalho em casa, recebo amigos em casa, a bola na parede incomoda, mas na porta me dá vontade de pegar, furar, e pregá-la no corredor feito um Cristo crucificado.

E não falo nada. A pior coisa que já fiz foi abrir a porta e olhar em silêncio. E ver em martírio os olhos das crianças irradiando medo e súplica. Só consigo sentir uma dor profunda e me ver nos olhos do seu Arnaldo. Que passe bem, se entre nós estiver. E que descanse em paz, se jaz no cemitério das bolas.

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